Espaço das Mina

Você não me prende mais

09:13

Eu sentia o vento e imaginava que o amor era assim, como diz no filme, “você não pode ver, mas pode sentir”. A brisa continuava bagunçando os cabelos, mas o coração não parecia sentir o mesmo prazer com os efeitos climáticos que o desalinhavam. 

Era imensidão dentro de mim, tão abundante que o mar se tornou cúmplice e assim se construiu nosso segredo. 
Haviam negações imperceptíveis por uma paixão cega e carente de amor próprio. A vontade do uno me roubava a vontade de Ser. Parecia lindo, até que a venda lhe cai dos olhos e é possível enxergar uma podridão fétida, distorcida e decomposta. 

A proteção não era minha, não era por mim. A proteção era por seu ego másculo, imaculado, viril. O cuidado não era pela parceria e sim pela sua estrutura ideal do que seria uma relação adequada aos seus padrões. Não havia colo ali, não havia acalento, nossa música não fazia mais sentido tocar.

Eu acordei com aquele líquido escorrendo em minha face, havia uma nuvem em meus pensamentos como se o sonho ou pesadelo ainda estivesse acontecendo. Tudo ficou branco e me vi em uma realidade que não fazia parte das juras, dos votos e das confidências. O real era assim?

Eis que uma vulnerabilidade descontrolada e inconcebida me toma em seus braços e me carrega para a ruptura daquela realidade perturbadora e alucinante. 

Já não sei mais quem sou. Minhas verdades foram dizimadas por egos envaidecidos, minhas ideologias colapsaram e desnortearam minhas orientações tão carregadas de certezas. Me vi desfeita.

Assim era amar? Assim era cuidar? Assim era querer? Assim era proteger? Assim era compartilhar? Qual minuto é esse que o acorde muda e a melodia traz raiva, amargura e agressividade? 

Não há posse no amar, não pense me possuir, não pense me aprisionar. Minha liberdade grita, berra, derruba portas e obstáculos, corre buscando o mar e o céu. Se eu escolho repousar nos seus braços deixe eu saber que o prazer desse aconchego está no prazer da minha autonomia em lhe querer e lhe fazer perto, do contrário a leveza se perde e eu me desmancho em cores sombrias que não me cabem e sufocam. 

Eu quero Amor na sua mais singela e suave expressão. Sobre a frase “fique longe de quem te faz sentir como se fosse difícil de ser amada”, percebi que amor é para quem ama e eu me amo muito para aceitar menos do que a felicidade ao meu lado. 

Mudei sim algumas certezas de lugar, não foi opcional, mas foi fundamental para a reestruturação do que sou. Me vi minha, enfim. Não me dou, não me ofereço, mas compartilho o que e com quem eu desejo. Hoje sou minha e continuo em constante construção e desconstrução, mas com amor, esse sempre.

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Da autora: Elisa acredita em signos e adora sua mistura de libra com ascendente em escorpião. Jornalista de alma e comunicadora por opção, encontra na escrita seu momento de desabafo, reflexão, desconstrução e empoderamento.

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