Espaço das Mina

Ser gorda e ser política

23:04

Sou uma mulher gorda. Posso ter perdido 20kg nos últimos dois anos, mas sou uma mulher gorda. 

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Não perco peso pra você reparar e comentar condescendentemente “nossa, você está tão magra”. Não perco peso pra você perguntar se tô comendo. Perco peso porque o mundo, que nega a humanidade da mulher, nega também a mulheridade da mulher gorda. Perco peso porque todo dia me negam a existência. Perco peso não porque quero, mas porque toda vez que como alguma coisa sinto como se ouvisse todos os insultos que ouvi durante a minha vida num só segundo. Vivo em culpa. Mas nunca vou perder peso o suficiente pra deixar de me sentir desconfortável na minha pele, ou terrível ao lado de minhas amigas magras, ou para passar a acreditar que mereço ser amada. Sou uma mulher gorda. 

Eu sei, e você também sabe. O que você quer dizer com “você está tão magra” é, basicamente, “você está mais magra”. Não magra o suficiente pra ser gente. Não magra o suficiente pra sair na rua sem querer se esconder. Não magra o suficiente pra se olhar no espelho sem sentir vontade de morrer. 

Sou uma mulher gorda não só pelo meu biotipo, mas porque cresci percebida como mulher gorda, um padrão que varia de região em região e de contexto em contexto. Sou mulher gorda porque a primeira coisa que me disseram quando voltei de uma longa viagem foi “você está parecendo uma bola”. Sou mulher gorda porque meu namorado me fazia acreditar que me amar era um favor, e todas as pessoas com quem fiquei me trocaram por meninas mais magras. Sou mulher gorda porque, durante dezessete anos da minha vida, odiei fazer compras porque não tinham roupas para o meu corpo e as vendedoras me tratavam como uma aberração. Sou mulher gorda porque ouvi muitas vezes que não podia sair na rua com aquela roupa que “é pra gente magra”, que devia perder uns quilos se quisesse arrumar um namorado, e que eu seria muito bonita se fosse magra. A gente aceita relacionamentos abusivos porque são o que nos cabe, não só o que podemos ter mas também o que aprendemos que merecemos; a gente se esconde atrás de roupas largas, cabelos compridos, acessórios e qualquer coisa que tire a atenção do nosso corpo. 

Dentro deste contexto, existem duas atitudes das quais eu gostaria de falar porque parecem opostas uma a outra, mas têm um problema comum: as falácias de empoderamento e a negação do seu estatuto de mulher gorda.

Toda essa ideia de empoderamento é um rolê muito complicado; é bonito ver a amiga gorda desconfortável e dizer que ela tem que se empoderar, que todos os corpos são lindos. É bonito compartilhar textos anti-gordofobia, mesmo quando seus exemplos de beleza são magros (e brancos, e europeus, e etc). É *muito* bonito dizer que a amiga é linda do seu jeito e que tem que se aceitar. É que, veja bem, nenhuma mulher gorda tem problema com sua gordura. Mulher gorda tem problema com gordofobia. A gente não precisa que você fique falando pra gente se amar; em geral, a gente se ama, sim. Ou está em processo de. E se amaria muito mais se, pra além de se olhar no espelho e se sentir bem com aquele cropped novo, as pessoas na rua não te olhassem esquisito, se não rissem de você, se seus conhecidos não comentassem de maneira pejorativa, se você não continuasse excluída afetivamente. O empoderamento funciona um pouco diferente quando o social independe do subjetivo. 

É claro que a gente está inserida numa sociedade que lucra com a misoginia, e, dentro dela, todos os corpos são considerados inadequados – mesmo aqueles que performam todos os aspectos de um padrão de beleza podem ser fontes de sofrimento para os indivíduos envolvidos. E é claro que é uma forma de subversão muito poderosa e necessária, o empoderamento feminino; o que a gente às vezes esquece é que esse empoderamento tem muitos âmbitos. Uma mulher negra sofre diferente de uma mulher branca. Uma mulher lésbica sofre diferente de uma mulher hétero. Uma mulher gorda sofre diferente de uma mulher magra. E não é emancipador reprimir uma mulher gorda por desenvolver transtornos alimentares ou querer fazer uma dieta; não é emancipador fazê-la achar que a única coisa entre ela e uma vida feliz é se aceitar, e que só existe uma forma de se aceitar. Porque não é e não existe. A gente precisa falar de empoderamento, mas a gente precisa ter em mente que não é um estágio final, uma fórmula exata, e que não é simples se amar quando se é confrontada diariamente pelo ódio alheio. Cada mulher tem sua autonomia, seu tempo, suas particularidades. A gente tem que parar de colonizar feminismo alheio e respeitar a mulher gorda que chora toda noite quando pensa no quanto comeu, respeitar a mulher gorda que não quer ir à festa porque sabe que vai ficar sozinha, e respeitar a mulher gorda que se sente inferior às amigas magras, embora elas também tenham suas inseguranças. Ela não é fraca. Ela não é menos feminista, menos rainha, menos top.

O que essa cobrança de empoderamento de uma mulher gorda tem a ver com os elogios que negam sua gordura? Com gente que não te vê há um tempo e exclama, maravilhada, que você tá magra? E gente que te diz pra usar roupa colada pra valorizar seu corpo, porque você tem coxas grandes então parece “mais gorda” quando usa roupa larga? Gente que fica chocada quando você se afirma gorda, e diz “que loucura, você é linda”? (sabemos que somos)

Tem a ver que sou uma mulher gorda, e não é elogio ouvir alguém negar isso ou dizer “você é linda”. É irrelevante se sou linda ou não (o que é desvinculado, aliás, de todo padrão dominante). É irrelevante se pra você eu sou gorda ou não (o que é situacional). Sou mulher gorda porque fui socializada como mulher gorda, e todos os dias vivo o cotidiano da mulher gorda. Se denominar mulher gorda, numa sociedade que considera ser mulher gorda algo vergonhoso, é um gesto político e um reconhecimento de mecanismos de controle social contra os quais lutamos. Não é gentil da sua parte dizer “que nada, você é magra”. É outra forma de silenciamento. Somos mulheres gordas e resistimos.

Tem a ver, pra deixar isso mais claro, com aquele rolê de autonomia. Assim como você pode ter suas inseguranças em paz, sem ter sua carteirinha de feminista caçada, você também tem o direito de autoafirmação. Se dizer mulher gorda, sofrer o que sofre uma mulher gorda, enfim, ser uma mulher gorda, é viver uma existência política. Não existe um manual, uma receita de como revolucionar. 

Estar é revolucionar. Vou repetir mais uma vez, porque é verdade, porque é bonito: somos mulheres gordas e resistimos. Do nosso jeito. No nosso tempo. Resistimos justamente porque somos. 



Nina Auras tem 18 anos. É autora do livro “Como Romeu e Julieta” (Novo Século, 2011) e estudante de filosofia na USP. Ela gosta muito de esmagar batata, chá verde, tocar baixo e praias vazias, e odeia escrever bios.

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