Entrevista

Solta o som: Manger Cadavre?

20:30

O estilo é o hardcore e o vocal é feminino. Em tempos onde mulheres se sentem mais confiantes para mostrar sua voz e garantir seu espaço, Natália de Lima, vocalista da banda Manger Cadavre? e militante feminista é um exemplo de que há várias formas de se fazer ativismo - uma delas, pela música.

arquivo pessoal


A banda iniciou suas atividades no final de 2011 e nasceu para questionar: o cotidiano, as explorações e a sociedade. Daí a pergunta: comer cadáver?

Nata, como é conhecida, explica: “Eu faço vocais rasgados e guturais. Meus amigos formaram a banda e queriam que eu fizesse parte. fiz um teste e deu certo”. De lá para cá, foi aprendendo técnicas para aprimorar a potência.

A música faz parte da vida da vocalista desde sempre, uma vez que já na adolescência organizava shows e há 11 anos possui uma produtora, junto com o amigo Marcelo Kruszynski, a Soco na Fuça Produções.
“Costumo dizer que música salva vidas. Esteve presente nos melhores e piores momentos de nossas vidas e é algo que nos impulsiona a seguir em frente sempre”.
Mesmo com tanto tempo na área, Nata conta que, por geralmente enxergarem o hardcore como “coisa de homem”, ainda enfrenta dificuldade de aceitação “Mesmo estando dentro de um meio dito libertário”, explica. “Muitos que afirmam apoiar mulheres em bandas se resumem a posts em redes sociais, mas dificilmente abrem espaço para mulheres em evento e pouco divulgam essas bandas”.

Para ela e a Manger Cadavre?, a luta segue. É necessário um esforço por serem uma banda do interior, por serem uma banda com uma mulher no vocal. “Aqui no Vale temos mais apoio, há um pessoal muito firmeza no underground. No contexto geral das pessoas que nos veem pela primeira vez, há sempre os mesmos comentários: nossa, que foda, ela tem vocal de homem! A minha resposta é que eu sou vocalista, independente de gênero, existem vocais bons e ruins. É essa classificação que eu espero”.

arquivo pessoal | phill lima


Dentro do grupo, nunca passou por nenhum problema por conta de ser mulher. “Eles são pessoas fantásticas, me respeitam como indivíduo, sempre pedem minha opinião na composição das músicas, estão em constante desconstrução e possuem o pensamento libertário”, assume. Mas, e nos shows? Nem sempre é tudo tão óbvio assim para alguns homens. “No máximo algum cara vem fazer 'entrevista' pra ver se eu manjo de som. Das vezes que rolaram, eu respondi na zoeira e recebi algumas caras feias”.

Mesmo que ainda precise lidar com um ou outro tentando desmoralizá-la, a situação não tira de Nata a visão sobre música e sobre o ambiente em que está. Pelo contrário, a estimula. “Música é resistência. É a voz que temos para transmitir nossa visão de mundo e lutar contra tudo aquilo que consideramos opressor”.

Ao invés de grandes nomes do estilo como inspiração, a vocal tem os amigos e as oportunidades que teve com a banda acima de tudo. “Acho que o que mais me inspira são as amizades feitas. Gosto muito de tocar fora e conhecer a realidade de cada cidade. Essas coisas somadas são motivadoras demais”.

Nata apresenta uma firmeza nas palavras que nem de longe podemos imaginar que ela já foi a menina insegura, que tinha vontade de subir em um palco, mas não o fazia. Como ela era um dia, acredita que ainda haja muitas que são dominadas pela vergonha ou medo da não aceitação. do assédio… “O lance é começar e esquecer o resto”, aconselha, sucinta.

E batendo na tecla da conquista do espaço feminino, Natália conta que receberam cerca de 11 convites para apresentações em homenagem ao dia da mulher e, por já terem shows na data, apenas 2 foram remarcados para mais tarde. Seria esse um falso apoio à causa? Não necessariamente. “Eu acho que até há boa vontade por parte dos organizadores em fazer fests com espaço para bandas com mulheres, mas minha crítica se dá no fato que o apoio acaba se restringindo a essa data. Se for pra apoiar, não tem que ser só uma vez por ano, né? O machismo é intrínseco na sociedade”.

arquivo pessoal


A percepção sobre o que é machismo ainda é bem distorcido no conceito das pessoas, como bem explica Nata. “Muitas pessoas nem sabem que são ou reproduzem machismo. Muitos acham que "apenas" por não agredirem mulheres verbal ou fisicamente não sejam machistas, mas pequenas atitudes no dia a dia mostram como isso é enraizado nas pessoas. Especificamente no meio underground, se dizer libertário, pró causa feminista e não ter ações voltadas às mulheres que não sejam apenas no Dia Internacional da Mulher, exemplifica essa questão que soa, muitas vezes, a oportunismo em apropriação de causas”.

Se como vocalista Nata já possui domínio sobre si mesma, como militante feminista se mostra ainda mais empoderada. Suas vivências e o meio onde está inserida dão o tom de determinação para suas crenças e para ser quem ela é. E então, por que ser feminista? “Porque acredito em um mundo em que as classes dominantes deixem de existir e que possamos todos ter os mesmos direitos, viver bem, com dignidade e respeito. Essa luta de classes passa por vários âmbitos como o dos trabalhadores, o da questão racial, a de orientação sexual e a de gênero. Ser feminista é lutar para que todas as mulheres consigam igualdade entre as mulheres, pois entre nós mesmas há privilégios (respeitando e apoiando mutuamente as pautas de cada uma) e que as opressões patriarcais que são seculares sejam extintas para que possamos, finalmente, sermos identificadas como iguais. Ao meu ver, a luta por um mundo melhor e mais justo está intercalada entre essas fragmentações”.

Justo!

Quer conhecer o som da Nata?

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