.Entrevista

Adjetivo: gorda

11:41

“Eu sempre tive uma imagem distorcida de mim mesma”, afirma Lilian, 37. “Só fui enxergar de fato meu corpo quando desejei muito uma calça jeans x e ela não deu em mim, mas deu na minha mãe, que sempre foi magrinha. Eu tinha uns 15 anos”, conta Vanessa, 27.

A percepção que temos do nosso corpo, bem como o que nosso corpo tem para dar a nós mesmos e ao mundo, tem sido discutida especialmente em espaços exclusivos para mulheres e na internet. Não seria para menos: somos, por exemplo, o maior número em cirurgias plásticas (mais de 87%) e vítimas de transtornos alimentares (9 em cada 10 casos). 

Em 1991 a escritora Naomi Wolf publicava o que seria um dos instrumentos mais importantes para as discussões sobre padrões de beleza. “O Mito da beleza” discute os aspectos políticos por trás das imposições, das regras e do jogo social que coloca todas as mulheres na busca insana pela perfeição. É por isso que, para tantas, “amar-se é um ato revolucionário”.

“Acho que o que mais me lembro era quando tava na escola. Tinha uns 12 anos, o corpo mudando, eu usando roupas mega largas porque minha mãe não podia comprar uniforme todo ano. E as meninas me achando gorda (eu não era!) e fazendo dietas tipo comer UMA colher de arroz e outra de feijão pra perder peso e ficar com os rapazes. Isso me marcou muito”, relembra Lilian. 

"Sentia como se não me encaixasse, como se estivesse errada". - Vanessa

GORDOFOBIA - O preconceito contra pessoas gordas está escondido nos pequenos detalhes, como a “fiscalização de pratos” e a falsa preocupação com a saúde, ou, às vezes, nem tão pequenos assim. Há casos de quem foi dispensado em concursos públicos devido ao peso, ainda que não apresentasse nenhum problema nas consultas médias, até, claro, o isolamento social (a repulsa, o nojo). Desrespeitos, ofensas explícitas e exclusão que geram insegurança, distúrbios alimentares e/ou emocionais, autossabotagem e invisibilidade.

fonte


É por termos tanto para falar e explicitar que Lilian e Vanessa aceitaram dar suas vozes a este bate-papo. Acompanhem!

A VOZ DAS GORDAS

Qual foi a primeira vez que ouviram falar no conceito de gordofobia?

Lilian: Com uma médica ginecologista que me disse que não era normal ser gorda e que minha síndrome dos ovários policísticos era por causa disso. Eu sempre tive SOP. E também quando um estranho gritou na rua que eu era gorda.

 Vanessa: Meu irmão sempre usou ‘gorda’ com o propósito de me xingar. Eu só fui conhecer o conceito quando comecei a acompanhar discussões em grupos feministas. O interessante é que esse contato [com o feminismo] fez com que eu mudasse minha relação com meu próprio corpo.

Vanessa: Descobrir o conceito foi fundamental para que eu começasse a reagir. (Lilian concorda)

Lilian: O entendimento de que eu não merecia ser punida por nada e era digna de respeito não importa o motivo.

E como vocês começaram a reagir?

Lilian: Comecei a reagir quando parei de me punir usando roupas feias. Comecei a comprar as mais coloridas e decotadas que encontrasse, comecei a andar rebolando na rua, de queixo erguido. E pronta pra mandar à merda quem atravessasse o meu caminho.

Vanessa: Eu comecei a reagir rejeitando a pressão das pessoas próximas, especialmente a dos fiscais de comida. Também passei a encarar de outra forma a dificuldade de encontrar roupas do meu tamanho. Fui eliminando a sensação de culpa. Parei de ter medo de roupas estampadas, por exemplo. Percebi que fico ótima com um vestido estampado. Mas sobre "a" grande experiência em frente ao espelho, acho que vale citar o dia da minha formatura da graduação. Eu estava tão preocupada com o vestido! Passei por cenas lamentáveis em várias lojas, mas finalmente encontrei um que fez com que eu me sentisse bem. Eu saí de casa muito confiante. E justo naquele dia recebi um monte de elogio. Nunca recebi muitos elogios e quando recebia acabava minimizando ou desacreditando. Naquele dia ouvi elogios honestos mas percebi que não precisava deles para me sentir bem. Não precisava de ninguém pra me convencer que eu estava bem. Eu já me sentia assim. Confortável no vestido e com meu corpo numa das noites mais importantes da minha vida.

Lilian: Mas ainda tenho um conflito, digamos. Porque eu me percebo assim, mas a sociedade não. Então me dá muita raiva às vezes perceber que apesar de gorda sou invisível, sem direito a amizades, a relacionamentos amorosos, a carinho. Porque a sensação que eu tenho é que todo mundo pensa que você não merece isso, aí sigo convivendo o melhor que posso no meu próprio mundo.

E a alimentação?

Lilian: Hoje tá todo mundo histérico com comida e o papel social dela é ignorado. Se alimentar também é partilhar, também é ato social. Compartilhar uma refeição, a meu ver, é uma das coisas mais íntimas que se pode fazer com alguém. Hoje, comida é vista como inimiga e vilã, e não é assim. (Vanessa concorda)

Lilian: Eu quase nunca faço fritura. Quando faço é com bem pouquinho óleo. Como vários legumes, odeio comer sem salada.

Vanessa: Hoje acho que a minha alimentação pode ser entendida pelos outros como "boa" porque sigo as sugestões da nutricionista. Mas a pior experiência que tive com fiscal de prato foi num encontro com amigos no shopping. Basicamente a mesa toda se uniu pra me convencer a não comer  hambúrguer (sendo a única gorda na mesa). Foi constrangedor mas ignorei e comi sim. Sem culpa.

negahamburguer


Qual a percepção do seu próprio corpo?

Vanessa: Eu não me imagino magra. De jeito nenhum. Achei interessante procurar uma nutricionista pra mudar minha alimentação. Nesse aspecto acho que valeu a pena, pois acabei experimentando coisas que me faziam torcer a cara. Ser magra nunca foi meu objetivo.

Lilian: Tô quase escrevendo um texto em que digo que espero o mundo entrar em sintonia comigo. Que meu corpo é muito bom em dar e receber prazer, que posso dar carinho como qualquer outro ser humano, que tenho direito de circular por aí como qualquer pessoa. Meu corpo é meu meio de me expressar no mundo. Se não for com esse corpo aqui, como está agora, então com qual? Cê sabe que essa vontade de fazer coisas, nadar, mergulhar, andar de bicicleta, surgiu depois que parei de brigar com meu corpo?

Vanessa: Se tenho uma meta é aprender a me amar mais e mais.

E como lidar com o mundo, intolerante como é conosco?

Lilian: Só eu sei como é se sentir preterida o tempo todo, apesar de toda a aceitação, o bad ass. Enfim. O único jeito é enfrentar o mundo, um pouquinho por vez.

Vanessa: Sinto que é importante encontrar apoio. Essa jornada de aceitação e amor, de se livrar da culpa e de superar os momentos traumáticos pode ser muito solitária. Aqui perto de mim tenho zero apoio, mas na internet mesmo encontrei pessoas que passaram por situações parecidas.

Representatividade importa?

Lilian: E como! As coisas seriam bem mais fáceis se o gordo não fosse sempre o alívio cômico nas novelas, o que é retratado com montes de comida. Deveria ser o que arruma parceiro amoroso sem ser digno de pena, o que pode ser elegante, inteligente, capaz.

Vanessa: Muito! Mulher gorda ou é o incômodo ou é invisível. Mulher gorda e negra entao! Muito mais.

Quem representa?

Lilian: A Jessica Ipólito. acho foda como ela praticamente cospe na cara da sociedade. Gosto muito da Tess Munster também, da Mary Lambert.

Vanessa: Como mulher negra, só muito recentemente me senti representada de verdade. Foi quando comecei a ler os livros da Chimamanda. Mas como mulher negra e gorda ainda é bem difícil. Ah cara, esse blog [Gorda e Sapatão, da Jessica Ipólito] é fundamental pra mim.

Lilian: O Lugar de Mulher tem sido fundamental.

Vanessa: Tem o Falando Sobre Gordofobia, que era tumblr e foi pro medium.


Se de alguma forma este texto te ajudou, abriu seus olhos ou te confortou e você quer acompanhá-las, visitem: 

Lilian: Medium e Blog 
Vanessa: Medium




0 comentários

Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.