Consciência Negra

Onde está sua consciência?

13:47

Eu sempre tive consciência de que o racismo não só existiu como ainda está por aí, fortíssimo nessa sociedade que você (e eu) gostamos de achar que é maravilhosa. A gente gosta de acreditar que esse lugar, "abençoado por Deus", é cheio das igualdade, todo mundo é lindo sim, não tem influência no comportamento não, racismo é coisa já superada, onde já se viu? Racismo só existe na sua cabeça, racismo reverso, mas eu também era chamado de branquelZzzZz.

Eu sempre gostei de contar histórias, especialmente as histórias da minha infância. Minha maior e mais próxima vivência com situações de racismo foi saber que minha mãe já foi confundida com "minha babá" - e também com uma possível sequestradora quando, por volta dos 12-13 anos, ela me fazia companhia no ponto de ônibus para que eu pudesse ir aos ensaios da orquestra da cidade. As pessoas me viam com uma "mulher estranha" e iam alertar a esposa de um tio para "tomar cuidado, tem alguém rondando sua filha".

Nos últimos tempos, no entanto, eu acabei percebendo que essas histórias não são minhas e não são sobre mim.

Eu sou branca (e loira). Eu nunca vou receber os mesmos olhares que minhas amigas negras recebem. Eu nunca vou receber uma crítica ao meu cabelo (tão bonita, mas esse cabelo...) ou a outra parte do meu corpo por "parecer uma preta". Eu não serei menosprezada pela minha cor e a primeira impressão que terão de mim não será a de que eu tenho, por obrigação, uma profissão inferior.

E não importa se minha mãe é preta, meu pai, meus avós ou se minha irmã é "mais morena". Se eu "sai branca", socialmente sou tratada como tal. Fico envergonhada de assumir isso? Sim. Incomoda? Sim. É uma condição que me perturba? Sim. Mas se já me dói analisar isso, o que dizer de quem está do outro lado? De quem é visto e tratado como menor, de quem é sempre colocado em descrédito, de quem precisa passar cada segundo da sua vida na defensiva? 

Eu não posso dizer nada por eles. Mas há muitos espelhos que podem.

Eu tenho minhas lutas, minhas batalhas diárias e sei que todas as outras pessoas se compadecem delas. Por que eu não faria o mesmo? O dia de hoje não é para falar sobre meus problemas, não é para fazer blackface como se estivesse salvando a humanidade. Não é para aliviar sua barra de quem "tem até amigos negros". Não é para você que ainda insiste em classificar em "preta bonita, preta feia". Não é para continuar achando que a justiça e a sociedade nos trata exatamente da mesma forma. Não trata, vamos tirar a venda?

O dia de hoje, para quem pede tanto consciência humana, é para colocar a mão na sua própria e pensar a quem você está dando voz e a quem você tem calado. É para querer, acima de tudo, deixar a cegueira de lado e assumir que, sim, temos privilégios e que, se a gente é tão igual assim, precisamos usar o que temos para ajudar o outro. É para jogar fora a hipocrisia e estar de olhos abertos e ouvidos atentos: quantas histórias de silenciamento você vê, quantas histórias de discriminação você ouve onde as vítimas não eram você, sua pele branca e seu racismo reverso?

O dia de hoje é pra gente lembrar que não somos nós que precisamos estar na defensiva, em alerta, quase como num combate, o tempo todo. É para lembrar que há, sim, quem tenha mais urgências. E que seja você uma pessoa que acredita em números ou que acredita na vivência do outro, o mundo não é esse lugar acolhedor que sua mente criou. Mas você pode ser.

Use sua tal consciência para ajudar quem não tem voz. E para ouvir quem deseja tê-la.

3 comentários

  1. Lindo textoe blog! Sempre a voz da nossa consciencia e a mais pura e honesta!

    Bjos
    Pri
    http://www.styledchicas.blogspot.com.br

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  2. Fran, ultimamente, pelas coisas que tu compartilha aqui, no Facebook e lá no grupo, tem batido uma identificação fortíssima contigo. Concordo e assino embaixo de tudo o que tu falou.
    Não cabe só falar da história do outro, como um meio de reconhecimento que aquilo EXISTE. Cabe dar voz ao outro pra que ele conte sua história.
    Eu, como branca, posso apoiar a causa, mas jamais falar por ela. Posso cuidar das coisas que as pessoas falam perto de mim, posso cuidar das coisas que eu eventualmente falo ("não sou tuas negas", "lista negra" etc, estão totalmente abolidas do meu vocabulário), mas jamais tirar o protagonismo daquele que luta.

    Obs.: Como tu escreve bem! Queria escrever assim também, hahaha. <3

    Beijo!

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  3. Ei moça... Delicado isso ein, mas é bom que seja escrito e lido.

    Sinceramente? Acho que o preconceito sempre irá existir, pois o ser humano é incapaz de ignorar diferenças, e incapaz ainda de se por no lugar do outro. Mas tudo bem, eu respeito o mundo pelas pessoas que tentam fazer dele diferente, como as que tem o ponto de vista como o seu. Muitas vezes me pego pensando sobre essa questão, sabe, eu já aprendi a relevar certos níveis de preconceito que sofro, muitas vezes retrucar a ignorância alheia é inviável e desnecessário... Mas, não falo de modo geral pois seria hipocrisia, eu sei que mesmo as pessoas que lutam ou não se veem como preconceituosas, tem esse preconceito cravado em seu interior, e não as culpo, pois é algo cultural, saca? O racismo em si só vai deixar de existir, quando quem luta contra ele, também parar de significar essa distinção.

    Apenas pensamentos, sabe, de qualquer maneira, é inspirador ler linhas tão conscientes e sólidas quanto as suas, uma características humana que se faz ausente na maior parte das pessoas.

    Eu passo por muita merda todos os dias, coisas desnecessárias que nem fazem sentido, mas luto todos os dias para cruzar com pessoas preconceituosas, para elas verem e sentirem que não sou melhor nem pior, não sou mais nem menos, mas elas nunca, nunca irão ter a moral e o culhão de me olhar de cima.

    E assim a vida vai... Bem escolhidas suas palavras, espero que suas atitudes reflitam o mesmo e isso seja prósperos e contagioso :D

    xoxo

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.