.Querido Diário

Medo das entrelinhas

21:33

Há muito tempo eu venho me questionando sobre minha verdadeira capacidade de escrever. Sentindo como se eu, por medo ou vergonha, me podasse cada vez mais. Não importa que tenha recebido alguns elogios à minha escrita mesmo no meio dessa crise: eu tenho medo.

.daqui


Quando Vane decidiu estrear seu Medium com um texto excelente sobre o medo de escrever, me vi muito em suas palavras, quis dar as mãos e chamar pra um sorvete. Às vezes sinto que dou tanto de mim no que escrevo, que é a única forma em todos os meus anos de vida de me despir completamente, que me apavoro com a ideia de passar isso adiante.

O medo de me expressar não veio sozinho. Veio seguido pelo medo de um texto sem nexo, de um texto que soasse como um grito de socorro, de um texto que fosse distorcido, de um texto que dissesse mais do que eu estava disposta. Veio com o medo do que tinha nas entrelinhas. Veio com o medo de mim.

Eu só queria fugir. Escrever sempre foi minha terapia e se na vida tinha aprendido a falar o mínimo possível de mim, a contar o mínimo possível sobre minhas angústias e dilemas, porque seria diferente com a única coisa que me faz ser quem sou? Não só quem se interessaria por textões, mas a quem convinha saber de coisas que eu nem queria que soubessem? A quem eu daria permissão de palpitar, quando aprendi que cada palpite que receberia seria um passo rumo ao quartinho escuro e sem janelas da minha mente?

A ninguém.

Passei a escrever em bloco de notas no celular. Passei a escrever no google drive, nas dezenas de cadernos que tenho guardado, em folhas de rascunho do trabalho e em bloquinhos de anotações aleatórios por aí. Em mensagens de texto para eu mesma. Ou na minha própria inbox no facebook.

Vem forte o medo de falar demais, o medo de falar de menos, o medo de ser desinteressante ou que sejam só mais algumas bobagens. O medo de que minha vida toda não consiga transparecer o que eu quero. De ser pesado ou vazio demais. O sentimento de inferioridade, mesmo ouvindo algumas vezes (ainda que não diretamente para mim) que todas as histórias importam. E eu lá tenho história? Talvez uma nota de rodapé.

Passei os últimos meses pensando que tinha perdido a sensibilidade, que tinha perdido o jeito, que tinha me perdido. Eu só me escondi tão profundamente e tão bem que preciso fazer um novo esforço para me recuperar. 

3 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu acho que quando gostamos de escrever, passar por cima do medo e da vergonha faz parte. Na época que comecei a escrever, tinha vergonha das pessoas acharem ruim meus textos por mais sinceros que eles fossem, mesmo assim continuei e to aí, firme e forte até hoje, já se passaram 8 anos. Beijos

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  3. Eu acho engraçado que até pouco tempo atrás, toda vez que lia um texto sobre medo de escrever (ou o medo de não conseguir mais escrever), não conseguia me sentir realmente representada, quando hoje é um medo bem real. E acho que sim, tudo isso faz parte quando a gente vira ~gente que escreve~, mas eu acho que mesmo nos textos e livros que não parecem transmitir nada do autor, tem algo ali dele sim. Então pode ser que as pessoas não estejam dispostas a ler o que a gente tem a dizer, pode ser que elas não gostem, pode ser que elas achem uma porção de coisas, mas acho que, antes de mais nada, a gente precisa escrever pra gente e só então pros outros. Pode ser que eu esteja radicalmente errada, mas é isso que eu tenho em mente quando começo a achar que talvez seja melhor esquecer essa ideia maluca de escrever, e é o que tem me mantido em frente. Então né, se funcionou até aqui, acho que alguma coisa deve estar certa aí.

    beijo e tô aqui segurando sua mão <3

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.