Jornalismo

Sobre snapchat, jornalismo e o consumo de notícias

13:47

Dia desses a Rafaela Carvalho, uma jornalista nômade digital que está na Hungria e fazendo algumas coberturas sobre a crise dos refugiados via snapchat (faela.carvalho, pra quem quiser e se interessar), fez um questionamento muito bom sobre o motivo de não consumirmos notícias ou, pelo menos, não da forma que gostaríamos.

Logo quando estava na faculdade me apaixonei por reportagens e adorava quando tinha que fazer alguma. Em seguida, eu aprendi que sou fascinada por livros reportagens e ainda sonho em escrevê-los.

O jornalismo, para mim, deveria ser uma forma de contar histórias. De informar, obviamente, mas também de aproximar o receptor de uma realidade diferente da dele. De contextualizá-lo, de fazê-lo entender o mundo onde vivemos.

bonito, mas ineficiente.
Quando estudei jornalismo, ouvia sempre que a linguagem precisa ser a mais próxima possível do leitor. Pra que usar aquele monte de palavra rebuscada que ninguém vai absorver nada? Como você leva informação para centenas de pessoas que não vão conseguir te entender? Não só sobre o nível da escrita, acredito que haja, sobretudo, a falta de contexto também.

Eu não entenderia a crise dos refugiados como entendo acompanhando os snapchats da Rafaela, que soam como uma deliciosa conversa de bar, ou links que contam a história dessas pessoas na Europa ou na Síria se fosse acompanhar matérias puramente políticas. Eu assumo que era ignorante em várias questões, em vários detalhes e poréns.

Da mesma forma, eu não entenderia o real significado dos protestos das Madres de la Plaza de Mayo se, quando precisei fazer um trabalho sobre, não tivesse conseguido um contato com algumas do grupo. Eu não entenderia a realidade da periferia se não tivesse lido Ferréz e Sérgio Vaz.

É óbvio que eu nunca vou sentir o que eles sentem. Eu nunca vou viver nada disso na pele. Por isso o jornalismo deveria ser tão importante: para criar a aproximação, a empatia, para fazer com que o mundo se mova por algo bom. Pode ser utopia? Pode, mas é o meu jeitinho de ver rs.

Infelizmente a maior parte do que observo no jornalismo são relatos que pisam em ovos. Vítimas tidas como culpadas ou suas meia dúzia de palavras sendo relativizadas, personagens sem voz em suas próprias vidas, defesa de punições que só servem pra quem luta etc.

Tô cansada de ver notícia de estupro e gente que não quer fazer nada a respeito (inclusive parem de me mandar essas coisas). Tô cansada de ver gente defendendo "justiceiro" assassino. Tô cansada de ver um jornalismo político e econômico, por exemplo, que não me diz nada, que não sugere nada além de "deu ruim".

Mas aí, amigos, existem redes sociais maravilhosas. Lembro que em maio fiz uma oficina de Mídias Sociais para Jornalistas e tivemos um exercício onde precisávamos escolher uma publicação e falar sobre como usar as redes sociais para trabalhá-la.

Eu nem tinha snapchat na época (agora tenho: fran.ciellencs), então me apeguei mais ao twitter (que até então era a minha rede preferida) e às transmissões online com os exemplos de alguns veículos alternativos. Se antes já achava que o jornalismo estava se fazendo de desentendido, naquele dia pensei muito mais sobre e hoje, nem se fala. 



Explico: temos youtube, snapchat, twitter, periscope, facebok, instagram, blogs, pinterest, flickr, vimeo e mais um monte de redes incríveis de utilizar. Todas elas nos possibilitam abordagens diferentes para um mesmo assunto ou histórias diferentes de temas diferentes. Ainda assim, mesmo em tempos de investimento em redes sociais, elas não são bem usadas.

Brincar de snapchat fez com que eu conhecesse muito mais do que aconteceria se me prendesse a essas matérias mecânicas que tenho visto. Fez com que eu conhecesse e aprendesse sobre a crise dos refugiados, fez com que eu visse um pouco sobre alguns países, eventos ou feriados importantes (com as transmissões ao vivo) e até conhecer um museu!

O twitter já me fez acompanhar debates, ver um ~corpo estranho~ caindo do céu de Buenos Aires, conhecer campanhas feministas pela América Latina. Com o instagram, já planejei roteiro de viagem. Isso sem contar palestras que vejo pelo Youtube, curtas e documentários nele e no Vimeo etc.

Quer dizer? São tantas as formas de produzir um bom conteúdo, de sair da mesmice, de não precisar ser tão mecânico, de atrair o público, de criar uma comunicação horizontal, de produzir debates, de unir todas as possibilidades. De ser dinâmico, envolvente. Todas essas alternativas fazem com que eu simplesmente não me atraia mais pelo tradicional e queira muito estar em um mercado (seja redação, seja agência) que preze a produção, a inovação, as redes sociais.

Fico com a impressão de que o jornalismo, que deveria ter a função de expor e explorar o mundo, não quer sair do seu mundinho.

4 comentários

  1. Fran, acho linda essa sua visão do jornalismo e confesso que também acredito nela. Penso em fazer um dia jornalismo com o intuito, sim, de conectar e aproximar pessoas. E como conectar pessoas se não sairmos do nosso mundo para tentar entender o do outro e nos colocar no lugar dele? O problema é que normalmente não é interessante escutar todas as vozes, tentar compreendê-las; muito "melhor" e mais cômodo é falar do meu palanque para aqueles que têm os mesmos privilégios/estudos/conhecimentos que eu. E isso é um saco, tão melhor aproximar esses assuntos mais "complicados" de todo mundo né?
    Isso me faz lembrar de uma representação em quadrinhos do motivo da existência dos refugiados da Síria, que explicou toda a situação de maneira simples e acessível e só ali consegui compreender e me colocar no lugar daquelas pessoas que estão sofrendo tanto. Acho muito válido usarmos de todos os meios para nos fazer entender, alcançar outros e nos aproximar das pessoas. Redes sociais têm, sim, lados ruins, mas ela também são grandes aliadas quando as usamos para o bem.
    Beijosss

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  2. Eu fico muito feliz de ver que tem gente do outro lado que também pensa assim, mas confesso que desde que me enfiei no mercado de trabalho, comecei a perder um pouco as esperanças. Não que eu tenha deixado de acreditar que seja possível, mas hoje acho muito mais difícil do que achava antes, sabe? A culpa com certeza é de quem não está disposto a dar espaço pra isso, as agências e jornais que acham mais fácil continuar seguindo a mesma fórmula batida, mas às vezes fico pensando se não somos nós que, no final das contas, acabamos alimentando esse formato. No fundo, é exatamente isso que você falou, e acho que não se aplica não só ao jornalismo, mas à comunicação de um modo geral.

    beijo!

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  3. Você me fez entender porque eu tenho vontade de fazer jornalismo mas não sou empolgada com a profissão, porque eu quero aproximar realidades diferentes, fazer com que as pessoas se conheçam e tenham noção sobre um fato de forma simples e eficiente, sem mimimi de jornalista que diz no meio da reportagem "tem que ser assim e assado, tem que ter pena de morte pras uns bandido desse". Porque isso, afinal, não é jornalismo. Só que, como a moça acima disse, é tão difícil mudar a realidade, então a gente lembra que tem que ter dinheiro no bolso suficiente, sabe.
    Quanto às redes sociais: como a maioria das coisas, geralmente só são ruins quando usadas de modo ruim, então mais do que apoio o aprimoramento do jornalismo incluindo essas redes e outros meios de diversificar e facilitar a compreensão, sem se tornar raso por conta disso.

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.