.Querido Diário

Eu não tenho um plano

11:57

[E eu não sei lidar com isso]

Teve uma vez, enquanto eu ainda fazia faculdade, que eu tava muito mal. E não era mal de tristinha, era mal de eu não lembro o que aconteceu nem como eu passei 2013 e 2014. Eu apenas não lembro. Sabe, assim? Quando você acorda e pensa "eu tive um sonho estranho, não lembro o que era, mas tinha algo a ver com tal coisa". Eu tive uma fase tipo essa.

Daí um dia eu estava pior do que de costume porque não tinha mais de onde levar porrada da vida. Detestava o que eu fazia, tinha sido traída por não uma, mas duas amigas, tinha terminado um tipo de relação estranha e ao mesmo tempo ouvido confissões que, olha. Só faltava um cachorro fazer xixi nas minhas calças (como diria minha mãe) (e alguém em Chaves).

Só que nesse magnífico dia eu tinha orientação de TCC e, como eu disse, nem sabia o que tava acontecendo. Na faculdade eu tive professores bons e ruins, mas tive duas professoras que de tão excelentes eu sinto falta até hoje. Uma delas conversou comigo nesse dia, sobre eu também estar me traindo. Tudo o que eu queria era estar me traindo, obviamente. Mas ela me explicou que observava desde que me conheceu que eu estava com pessoas que não tinham nada a ver comigo, que eu fazia coisas que não queria porque não falava não pra essas pessoas, que eu ouvia N coisas quieta, etc. Falou um monte de coisas, todas verdades.

Depois de formada fui visitá-la e ouvi algo sobre como era ótimo o fato de eu saber por qual caminho queria seguir minha vida e o quão ótima jornalista eu seria (e eu espero ser, porque vezenquando me dá um arrependimento de não ter tentado direito ou psicologia...). Aí eu achei ótimo, porque quando tô esperançosa com algo, acho que tudo é um sinal divino dizendo É ISSO MESMO MINHA FILHA VAI COM TUDO.

Eu fiquei um bom tempo longe da blogosfera, o que significa um bom tempo longe da única coisa que amo e sei fazer, ou seja: um bom tempo longe da escrita (e da leitura também). Hoje achei esse texto da Gabs e, nossa. NOSSA. 

Eu não sei se é o dia cinza, frio e chuvoso, eu não sei se é o desânimo ou algo pior (né? sempre tem), mas lê-lo só me fez pensar que: eu não tenho um plano.


Eu não funciono bem sem planos, apesar de ter feito algumas coisas boas na vida por impulso. O problema é que eu não sei pra onde mirar. Eu parei de falar sobre isso com todo mundo simplesmente porque não aguento, ainda que eu precise expulsar isso de mim de alguma forma.

Bom. Eu poderia dizer que meu plano é viver de escrever, mas isso não parece tangível.

Eu posso chegar numa entrevista em revista/jornal dizendo que "tô aqui porque quero viver de escrever" sem parecer ridícula? Eu posso chegar numa entrevista pra mestrado e dizer que "quero essa linha aqui porque eu escrevo, adoro, gosto muito, e acho que vai me abrir possibilidades que não imagino quais sejam, mas podem ser ótimas" sem parecer ingênua e desinformada? Eu posso dizer que o sonho da minha vida é ser escritora (e é mesmo) sem que eu pareça ter doze anos? (ou isso é só uma amostra do quanto eu me julgo o tempo todo?). Em agência, então? Dá pra falar sobre o quanto eu amo escrever numa vaga pra planejamento? Social Media? Eu te digo: não.

Não parece algo aceitável. Não parece algo real pra mim.

Pra ser sincera, eu sequer me vejo fazendo outra coisa da vida. Não poderia ser psicóloga porque, como disse JoutJout, "tem umas coisas que não pode falar e eu falo". Eu não poderia ser advogada porque ia querer ir pra área de direito da mulher e ia virar uma psicopata caçadora de homem (talvez? sim? obviamente?). Não posso ser relações públicas, não posso ser publicitária nem profissional de marketing. 

E eu não falo aqui sobre "trabalhar com o que se ama etc". É outra coisa. É aquele insight. Aquele estalo. Que eu não tive.

Falando em JoutJout, esse vídeo dela sobre talentos esquisitos [aqui] que não cabem num currículo me descrevem de tal forma que eu nem sei por onde começar (ah! também não posso ser vlogueira porque me expresso pessimamente mal falando e sempre deixo passar algo) (nem blogueira famosa, porque 90% do que eu escrevo = textão).

Existe um ponto importante no meu ~mapa astral~ (áries com ascendente em virgem com lua em virgem) que diz que eu fico extremamente fascinada pelas coisas que gosto e tenho tendência a ignorar o que não gosto. Eu acho que isso é muito verdade e talvez me influencie muito nessa vida. Pode ser? Faz algum sentido? Eu acho que faz. É eu ficar um pouco descontente com algo que tudo desanda.

Atención para: neste momento um colega olhou pra minha cara e perguntou se eu-estou-chorando. Olha os nervous da pessoa transparecendo.

Enfim (porque estou divagando demais).

Posso citar uma lista de coisas que não quero fazer/trabalhar na vida. Posso citar uma lista de coisas que me deixam infeliz e coisas das quais eu quero me livrar. Só que, ainda assim, eu não tenho um plano. Não sei o que quero fazer. Isso me desespera porque como vou casar/viajar/ter minha casinha assim? Isso me desespera porque eu nunca sei o que estarei fazendo da vida, já que até hoje eu sempre quero me livrar do que quer que eu esteja fazendo neste momento.

Eu não tenho muitas ideias elaboradas sobre o que preciso fazer para chegar lá (nem sei aonde é lá), mas também não acho que "qualquer caminho serve". Eu fico um pouco mais angustiada a cada vez que leio um livro sobre uma pessoa que tinha a vida toda ferrada e aí conseguiu se resolver (tipo "A vez da minha vida" e, sim, "Sushi"). Eu não gosto de sentir que estou perdendo tempo. Eu não gosto de sentir que não posso traçar um plano porque não tenho um destino (como aproveitar a jornada assim?). Eu não tô nem falando que precisa ser X e ponto até o fim da minha vida. Eu posso mudar de ideia. Tudo bem. Só preciso saber de onde começar.

Não gosto dessa sensação de que o tempo está passando e eu não estou me movendo. Não gosto das crises de ansiedade que isso me causa, nem do fluxo de pensamentos que tenho sem chegar a conclusões nenhuma, sem nem saber onde arriscar.

Preciso de uma dose de autoconfiança ou velas aromáticas? Talvez.



Sei nem terminar esse texto.

6 comentários

  1. Ai, Fran. Posso te dar um abraço? Me identifiquei muito com o seu texto, do começo ao fim. Começa que desde o Ensino Médio minha vida começou a passar num borrão, a qual eu só lembro em flashes de vez em quando. Terminei a faculdade, estou empregada onde estagiei, mas e agora? Também detesto não ter um plano. Isso que você escreveu - "Eu não gosto de sentir que estou perdendo tempo. Eu não gosto de sentir que não posso traçar um plano porque não tenho um destino (como aproveitar a jornada assim?)" - me define muito.

    Lembra que quando criamos o GSB e nos adicionamos no fb, falamos um pouco sobre Mestrado? Então, é uma ideia. Parece meio distorcida ainda, pelo menos pra mim, mas é um objetivo. Eu também não faço a mínima ideia de como me apresentar nos lugares. Queria trocar de emprego, mas tenho essa sensação de que nenhum outro lugar vai me aceitar pelo que eu tenho no currículo. Eu gosto de escrever, e revisar, e sei lá, é suficiente obter um cargo com isso? São questões. Só não vale desistir, eu acho. Se te consola - e eu espero que sim - você não é a única; estamos no mesmo barco. E acho difícil não encontrar um(a) jovem de 20 e poucos anos que também não tenha essa sensação I have no idea of what I'm doing. Fase transitória, novos começos - tudo isso é assustador. Vamos continuar caminhando, que uma hora as coisas se acertam como nos chick-lits, e depois vamos olhar pra trás com mais confiança... Eu espero.

    Ah, e por mim, todas as blogueiras de textão seriam as famosas, e não o contrário! Palavras = amor. ♥ Amo fotos também, mas não acho que o blog seja a rede social certa pra isso, e tenho preguiça de publieditoriais, mas.

    Beijinhos. :*

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  2. Ia começar o comentário falando pra você se sentir abraçada porque me identifiquei muito e aí vi que a outra menina que comentou começou exatamente assim. Hahaha. Mas ó: verdade, te abracei virtualmente.

    No final de 2013 eu saí da agência onde trabalhava, mudei de cidade, resolvi que ficaria um ano sem trabalhar e iria viajar. Sabe todo aquele lance de "ai meu deus, deixei tudo que tinha pra trás e quero é viver do que amo"? Bem isso.
    E aí passei 5 meses só planejando minha viagem, descansando, fazendo só o que gosto (basicamente ler, escrever em blogs e assistir séries). Viajei, voltei e cheguei aqui com saudade do que eu fazia antes, justamente aquilo que sempre disse que só fazia porque me rendia dinheiro e não que fosse minha paixão. Passei a trabalhar de casa, no meu ritmo, com os clientes que gosto e foi indo... isso há mais de ano, mas me pergunta se é o que eu quero fazer pelo resto da vida? Claro que não. Pergunta se eu sei o que realmente amo fazer? Marréclaro que não. Se eu faço alguma ideia de onde e o que estarei fazendo daqui 5 anos? OPA! CLARO QUE NÃO!
    E isso também me deixa ansiosa e angustiada. Enquanto parece que todo mundo por aí tem um plano bem traçado, eu tô aqui deixando a vida me levar, fazendo algo que descobri que pelo menos gosto um pouco, talvez deixando oportunidades de fazer algo que gostaria mais passarem. E tudo porque simplesmente não sei que outra coisa eu gostaria de fazer. Foda, né?
    Na maioria dos dias eu só fico pensando que queria voltar a ser criança e não ter esse tipo de preocupação. Hahaha.

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  3. "Eu posso dizer que o sonho da minha vida é ser escritora (e é mesmo) sem que eu pareça ter doze anos?" CLARO. Se esse é seu sonho, se planeje e escreva! Escreva um conto, um texto ou um livro e corra atrás =D

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  4. Eu li esse texto logo quando você postou, mas precisei absorver ele um pouquinho antes de sentar e mimar. Acho legal quando leio alguma coisa com o qual me identifico de cara, com um texto que facilmente podia ter sido escrito por mim. Sei lá, é bom saber que eu não tô sozinha nesse deck de cilada e tal. Mas não é meio desesperador também? Porque às vezes, ler essas coisas faz com que eu olhe pra mim, pra minha vida, e de vez em quando a gente se assusta com o que vê. Minha vida saiu muito dos trilhos do mês passado pra cá e se antes eu já não tinha um plano, agora eu tenho menos ainda, e esse é o tipo de coisa que me desespera muito. Não era ontem que eu parecia ter tudo nas mãos? Não foi ontem que eu tinha um futuro todo traçado e dava os passos da maneira certa? São questões. Não faço a menor ideia do que estou fazendo com minha vida é o tipo de coisa que eu repito todo santo dia, da hora que acordo até a hora que vou dormir, e sei que é assim pra um monte de gente também, mas só posso esperar que as coisas melhorem em algum momento e que, num futuro que espero não ser assim tão distante, a gente possa sentar e rir de tudo isso.

    beijo <3

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  5. Oie!

    Tô aqui pra te convidar para conhecer meu blog!

    www.blogmeumilkshake.com.br

    Beijo :)

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  6. Amore, vai parecer conversar de tia velha, mas ouça a sua tia velha que te adora aqui: faz parte <3

    Faz parte e, bom, não vai passar. A diferença é que, com o tempo, você vai ver que tudo bem não ter um plano. E que pode ser até bom. EU JURO.

    A merda é que a gente vive nessa ~sociedadji~ que obriga a gente, sempre, a ter planos. E você, ainda, com esse seu mapa astral POUCO CONTROLADOR SOCORRO AMIGA deve ser mais difícil ainda. Te falo porque a ansiedade, essa fofa, me acompanha desde a época da formatura e eu ainda não consegue me livrar totalmente dela (mas tou trabalhando nisso). A gente é obrigada a pensar em tudo, nos planos profissionais, nos planos da vida, desde cedo. É duro se livrar disso. Mas eu aprendi que dá pra contornar isso fazendo uma coisa simples: não tendo medo de trocar de plano.

    Dai você consegue dar um "jeitinho" nessa merda de pressão: ó, meu plano é X... até não ser mais. Tá vendo? Você tem um plano! Mesmo que esse plano mude. Acho que faz bem pra gente que precisa ter esse controle da vida - já te disse que sou virginiana não diagnosticada? Tenho certeza que trocaram minha data de nascimento na maternidade. Mas pode ser bom: vê um plano, aí (e porfa, não se prenda ao que as pessoas acham que é um plano bom, ok? Se for pra ser "vender velas aromáticas", STICK TO IT), mergulha nisso, estuda isso, debulha isso... E se não deu certo, bom, PRÓXIMO. Próximo plano!

    Isso é o que eu tento fazer da minha vidinha, ao menos, e olha: tem me ajudado bastante. Mas no final: vai ficar tudo bem :) Eu te garanto!

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.