.BEDA

#23 O moço que queria voltar pra Guatemala

18:03

(daqui)
Era madrugada de sexta-feira e eu só queria sobreviver no aeroporto de Guarulhos para chegar bem em Curitiba. Notei que havia um rapaz muito agitado pedindo tanto café quanto eu e tentando usar o celular várias vezes (aparentemente sem sucesso). Como senti uma certa dificuldade até para fazer as atendentes da Starbucks entender seu nome e pedido, pensei que ele não deveria ser daqui.

Ele se sentou de frente para mim e estava bufando, de tanto desespero. Tentei enxergar nos documentos que estavam na bancada de onde ele era, mas só consegui ver pouca coisa. Sou uma pessoa que fica aflita vendo a aflição das pessoas, então reuni uns dez minutos de coragem para perguntar se ele precisava de ajuda.

Então ele disse que não falava português, mas que poderíamos falar em espanhol ou inglês. Respondi num espanhol sonolento que preferia a primeira opção, que eu o entendia. Aí ele me explicou que não o tinham permitido embarcar em um voo porque precisava ter a vacina da febre amarela para sua conexão - e ele não tinha. Também disse que não conseguia falar com ninguém da empresa para saber o que ele poderia fazer e que, para completar, nem conseguia ligar no 0800 do seu celular.

Ofereci o meu e ele ligou, mas só conseguiu falar com alguém que não resolveu minimamente seu problema. Eu passei meu whatsapp e e-mail para, caso ele precisasse e eu conseguisse, indicar quem poderia hospedá-lo como couchsurfing. Eu não conseguia pensar em muitas opções na hora, então disse que sentia muito (sentia mesmo) e que qualquer coisa me escrevesse. Ele saiu e eu fui procurar uma farmácia.

Não achei a farmácia, mas o encontrei de novo, um pouco mais nervoso porque não tinha conseguido resolver o problema, já que no guichê da tal empresa não o entendiam. Me ofereci para tentar ajudá-lo novamente e, conversando com um atendente, descobrimos duas possibilidades para a troca de passagens com conexões que não exigiriam dele a vacina. De lá, seguimos para o atendimento onde ele pudesse ver o quanto essa troca custaria e tirar outras dúvidas sobre visto etc.

Foi um bom bocado de dinheiro para conseguir um voo que sairia dali três horas e o permitiria rever sua família, em vez de voltar para a Europa, como ele chegou a pensar. As cinco e meia da manhã eu disse que precisava ir pro meu embarque, ele me agradeceu e eu ri, porque não havia feito nada demais. Mesmo assim, ele ficou grato pelo apoio e me adicionou no facebook.

Ontem de manhã me enviou uma inbox contando que havia conseguido, finalmente, chegar a Guatemala.

A necessidade da empatia, meus amigos, ela é universal. E eu aprendi a dar as caras para conversar em outro idioma - e de quebra, ganhei um novo amigo.


obs: Aeroporto de Guarulhos, cês tão meio fracos de atendentes que falem espanhol. Precisando estamos aí.

1 comentários

  1. que lindo sis! Esse povo tem um sotaque difícil de entender, mas você fez muito mais do que pensa viu? Se eu que nem tava lá sei disso, só imagino o moço lá da Guatemala.

    cê é fueda <3

    lov u!

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.