BEDA

#14 definições sobre o que não fomos

21:55


(daqui)



Eu sempre soube que nós nunca seríamos. 

Quando estávamos ali, juntos de alguma forma, eu tinha um sentimento por você que poderia ser várias coisas - esperança, paixão, excitação, conforto, identificação. Eu sabia que não era amor. Eu sei que você ficou provavelmente com muito medo disso (e se eu me apaixonasse por você?). Mas ao contrário do que todo mundo diz ("nunca se sabe", "você não sabe", "não dá pra controlar"), eu sabia. 

Eu queria muito aproveitar o que quer que fosse, porque imaginava que poderia ser melhor do que nossas conversas eram. Era uma espécie de embriaguez, esse nosso papo. Era um desafio. Eram provocações boas para aliviar a tensão que ambos sentiam no caminhar do dia.

Era bom intercalar tudo isso com conversas mais intensas. Com nossas visões sobre a vida, o mundo, sobre valores, sobre literatura, sobre a escrita do outro. Sobre o que a gente queria pro mundo, sobre o que o mundo queria de nós. Sobre nossa luta diária e, em seguida, sobre como a ideia do beijo do outro parecia interessante. Sobre o arrepio na espinha e sobre quais os livros preferidos do ano.

A gente trocava olhares e ria, porque sabíamos o que estávamos guardando ali. Tudo estava bem, até você trocar os pés pelas mãos. De repente, eu não admitia isso. Não admitiria que esse instinto de fuga criasse o muro que criou entre nós.

Você precisou me ouvir. E acabamos o que, nem por um minuto, havíamos começado.

Foi estranho te reencontrar depois de tanto tempo. Estranho e curioso. O fato de eu ainda conseguir sorrir da forma que sorria para nós me surpreendeu. Quer dizer, quem quebra laços e mesmo assim continua acompanhando o outro? Quem, num reencontro, pede conselho e conta dos tropeços da vida? Tem tropeço que a gente jura que não conta nunca pra ninguém. Só quando se reconhece em alguém.

Eu não me apaixonaria por você. Não sonharia por dias e dias, não sentiria uma necessidade absurda de acompanhá-lo todos os dias, mesmo de longe. Não cometeria loucuras, não desviaria do caminho, não faria novos planos. Mas são boas as lembranças quando envolvem essa cumplicidade que tive com você.

2 comentários

  1. Esses seus contos-crônicas são muito amor. Tão cheios de doçura... <3

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  2. Eu odeio isso em mim: sorrir pra pessoa inocentemente mesmo depois de tudo que passou...

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.