.BEDA

#13 A menina que ia enfrentar o mundo

11:07

(daqui)

[Essa história faz parte do meu projeto (não muito bem sucedido) de falar sobre pessoas que conheci, inspirado no blog 1001 pessoas]

Eu guardo com certo carinho algumas histórias que ouvi no ônibus, quando perdia 3h nele indo e voltando, todos os dias, para Mogi das Cruzes. Eu também esperava muito tempo pelo transporte maravilhoso que me traria de volta pra casa, então além de pessoas do ônibus conheci as pessoas da fila dele.

Foi aí que eu conheci a personagem dessa história. Vamos chamá-la de Sara por motivos de: esqueci o nome dela para preservá-la.

Sara é uma menina um pouco mais baixa do que eu e um pouco mais nova também. Ela tinha 19 quando eu tinha 21, acho. Cabelo vermelho, voz fofinha, o tipo bem querido. Pra variar, puxamos papo porque ela queria saber a que horas sairia o bus e porque nós duas queríamos reclamar sobre aquela cidade que só fazia frio e a péssima sorte de estar chovendo com vento quando estávamos numa plataforma semi descoberta.

Aí, depois de uma meia hora de conversa, o celular dela tocou. Eu fiquei ali por alguns minutos ouvindo a conversa fofinha e as declarações meio tímidas dela para a pessoa do outro lado do celular, com um "a gente vai se ver logo, prometo que a gente vai se ver logo". Eu fico desconsertada com pessoas bonitas, mas fico extremamente envolvida com conversas de amor ao meu redor.

Ela desligou e eu, pouco intrometida, disse: "que bonito foi isso". E ela sorriu e começou a falar sobre "é, faz tempo que a gente não se vê. Eu namoro tem pouco tempo..."

O ônibus chegou (abençoado seja, né), eu entrei e fui pro meu lugar preferido (o banco alto, ao lado de qualquer janela, porque tenho 10 anos, óbvio). Ela entrou e sentou ao meu lado. E continuou conversando.

"Essa pessoa que eu namoro é uma menina..."

Eu sorri e perguntei como elas haviam se conhecido porque, afinal de contas, eu amo uma love story.

E ela contou a vida toda. Que se conheceram na praia, onde ela morava, onde a namorada morava, que se sentia mal quando era mais nova porque se forçava a ficar com meninos e sabia que não gostava daquilo, que se sentia desconfortável, que sabia que jamais ia gostar de nenhum deles de verdade e que achava que tinha algo de errado por ela. Até conhecer uma menina que se tornou muito amiga dela, tão próxima que saiam e se falavam todos os dias. Aí essa amiga ficou com alguém e ela surtou de ciúme e não entendia o motivo disso. E aí se tocou do que estava acontecendo.

Contou que a família sempre suspeitou, até antes dela, mas que tinha medo do padrasto que dizia que jamais aceitaria. "Eu tenho um primo gay, tenho uma prima trans*, mas não entendo porque não me aceitam".

"E sua namorada, como é pra ela?"

"Ela só tem o pai, que já bateu nela só por suspeitar que ela fosse lésbica. Eu acho que no fundo minha mãe via entender, porque ela me ama. A família até já faz brincadeiras comigo. Eu queria que ela viesse morar comigo... É difícil, eu tenho medo do que pode acontecer na rua, na casa dela, mas eu disse pra ela que eu a amo e que a gente vai ter que enfrentar isso um dia."

Quando ela precisava descer, eu disse que foi ótimo poder conhecê-la e que me sentia honrada em ter ouvido a história dela, agradeci por isso e disse que torceria todos os dias pra dar tudo certo pra elas, porque tinha certeza que ela merecia. E ela disse: "você parecia confiável. Eu precisava falar com alguém. Obrigada pela força. Até mais"

Eu nunca mais a vi, mas ela foi uma das pessoas por quem (apesar de ser o mínimo a se fazer) troquei minha foto de avatar no facebook.

1 comentários

  1. QUE COISA LINDA SIS!
    Não sabia dessa moça, mas awh <3 espero que ela e a namorada estejam bem e felizes e que o mundo se torne um lugar melhor para elas!

    Amo-te <3

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.