Comportamento

Precisamos falar sobre a nossa intolerância

20:11

daqui
Há uns dias eu estava almoçando na casa de uma amiga e com a família dela. Apesar da timidez, eu me senti muito confortável por estar em um ambiente onde as pessoas falam dos mesmos tópicos que me interessam. Ali, eu quase pensei que era como elas. Exceto pelo fato de que nunca seria.

Minha amiga, bissexual, estava contando para sua tia, lésbica e negra, que uma parte da sua família pediu para que ela conversasse com um primo, que é gay - e rejeitado pela outra parte.

Em suas palavras: “foi mais ou menos um ‘cês que são gay que se entendam’”.

“Eles não querem falar com ele? Vão esperar mais um morrer?”, foi a resposta da sua tia.

Então eu me lembrei que é improvável que eu vá passar por isso na vida. 

Eu tive um primo gay. Sempre foi normal para mim o fato de ele ser gay e o que isso significa. Ele foi meu vizinho desde que eu me conheço por gente, eu conhecia seus amigos, eu conhecia seus namorados e suas histórias e me lembro que, aos dez anos, quando soube que ele já havia tido uma noiva, fiquei sem entender. “Pra que namorar uma menina se ele gosta de menino?”.

Foi com um casal de amigos dele que aprendi a jogar Neopets. Foi graças à ele que, aos dez anos, eu queria ser estilista porque queria saber fazer vestidos tão bem quanto ele fazia. Minha mãe nunca precisou se preocupar em nos "explicar" algo. Foi, anos depois, vê-lo na primeira Parada LGBT da minha cidade que fiquei pensando sobre como, ali sim, ele deveria se sentir feliz porque estava no meio de gente que ele gostava.

Há uns anos ele faleceu. Aids.

Mas desde muito antes disso, desde antes de conhecer o feminismo eu penso que precisamos falar sobre a nossa intolerância.

E enquanto a gente permite que pessoas tenham tanto medo de serem quem elas são, de fato, enquanto a gente permite que elas se sintam tão oprimidas a ponto de negligenciarem sua saúde, enquanto permitimos que um bando de gente babaca se sinta no direito de ameaçar ou agredir pessoas pela forma que elas exercem sua sexualidade, seja pelo ódio ou em nome de um deus - que definitivamente não se parece com o que eu acredito, enquanto permitimos que meia dúzia de cegos se sintam no direito de ditarem regras sobre a vida, a vontade, o corpo e o sentimento do outro, estaremos carregando nas costas a culpa por essas mortes.

A gente tem medo de falar com o outro. A gente tem medo do que não conhece. A gente tem medo de perguntar, de querer entender, de chamar pra um café, de abrir os horizontes. A gente tem um medo danado de sair do sofá confortável e cheio de almofadas que é a nossa zona de conforto e dar a mão pro outro e defender, e apoiar, e dar suporte e dizer que tá tudo bem. A gente tem medo de abrir a boca e tem medo de dar espaço pro outro, a gente tem medo de defender e ser visto como igual e “sofrer as consequências”, mas não tem medo de ir deitar, todos os dias, sabendo que não fez o que podia por alguém - não importa o que seja esse poder.

A gente gosta de ficar envolto pelos nossos privilégios porque é OK não ter que olhar pro lado e identificar que aquela pessoa que condena, que bate e que mata é o nosso retrato. É a gente. São as pessoas que vão à igreja, que ensinam as crianças, que dão palestras, que conduzem empresas, que fazem feira ou entregam jornal. São as pessoas que acham cenas de estupro camufladas que “falta de romantismo” ou “arrependimento” tudo bem, são as pessoas que perdoam o cara que bate na mulher porque “ela é louca”, mas se escandalizam com um abraço no comercial de dia dos namorados.

Existe um monte de gente que eu não amo apesar de, eu apenas amo. É improvável que um dia seja eu, mas eu espero que jamais sejam elas - e ninguém mais.

Precisamos falar sobre isso.

Precisamos abrir mão dessa nossa cegueira seletiva.

3 comentários

  1. Aff sis, que orgulho. Que texto lindo! Não sabia desse seu primo ): sinto muito. Ainda fico muito puta da vida quando ouço c e r t o s c o m e n t á r i o s dos meus pais em relação a isso, mas me falta a maturidade e a calma de espírito para ser diplomata e reeducá-los em relação a todas essas coisas. Não consigo conceber esse tipo de gente que agride e mata em nome de Deus,que Deus é esse meu Deus? Não consigo tanta coisa, é complicado.. Dá vontade de simplesmente explodir o mundo e recomeçar tudo de novo, só com as pessoas que agregam...

    A gente já conversou muito sobre o feminismo e você sabe minha posição sobre, mas você também sabe que foi ele que abriu meus olhos pra muita coisa, inclusive pra isso... É triste essa nossa realidade, e eu queria ter o espírito engajado de chutar a porta do preconceito com os dois pés e tentar expurgar isso de todo munndo, infelizmente não tenho, mas eu tento - do meu jeitinho - diminuir essa palhaçada toda que é o mundo.

    Amei o texto e acho que vou te encher mais o saco pra você postar mais aqui!

    Amo você <3 beijos

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  2. Miiiiga! Que texto maravilhoso! Você conseguiu provar que não precisa de termos complexos e argumentos puramente teóricos ou políticos para deixar TÃO evidentes a contradição e a falta de lógica da homofobia. Parabéns! Continue a escrever: apenas amo! <3

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  3. Que texto maravilhoso! Expressou maravilhosamente uma necessidade urgente a todos!
    Precisamos mesmo, e muito!
    Parabéns pelo texto, Fran. Que bom saber que corações que sentem assim andam por aí.

    Beijao.

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.