Corpo

Proibido coexistir amor e reconstrução

17:56

(daqui)

Quando eu era mais nova achava que ter a autoestima em dia era se aceitar exatamente pelo que se era. Que era bobagem querer mudar isso ou aquilo, pois todo mundo pode ser bonito de todas as formas. Mais tarde, quando passei a entender sobre feminismo, descobri que se amar e se aceitar está acima de estar totalmente satisfeito com você mesmo. Que devemos ter em dia nossa autoestima ainda que tenhamos o desejo de engordar/emagrecer, por exemplo.

Isso porque se sentir belo e se sentir bem não se define só pelo que aparentamos. Já dizia um antigo professor de biologia "Você é mais que um número". E, como li uma vez em um blog (não encontrei o texto, mas acredito que era o Não Sou Exposição): não cuidamos de algo que não gostamos. Ou seja, não dá pra colocar as mudanças que queremos acima do amor que temos por nós.

Eu sei que desde sempre sou uma grande entusiasta do "ame-se", do "seja quem você é", do "toda forma de ser é ser bonito". Eu sei disso. Eu brado isso por todos os cantos porque tenho a esperança de poder ajudar alguém assim. Mas eu mesma, pra mim? Não consigo.

A Noelle postou hoje esse texto e logo cedo eu chorei lendo, porque partilho desse mesmo sentimento que ela quando se trata de autoestima.

Eu não sei acreditar em elogios e não sei me elogiar. Eu ouço pessoas o tempo todo me intimando ou dando "conselhos" sobre o que eu poderia fazer com meu cabelo ou que roupa eu poderia usar. Eu ouço que meu cabelo está "selvagem" quando ele está onduladinho do jeito que eu sempre gosto. Eu deixo de usar maquiagem porque não suporto os comentários com malícia e/ou invasivos (ui, vai ver quem hoje? vai fazer o que depois daqui?).

Eu deixo de usar tal roupa porque gorda não pode. Eu rio pra não chorar quando alguém diz "fulana chegou aos 75kg, que absurdo" e eu passei disso fácil. Eu vomito culpa porque é insuportável lidar com quem vive apontando minha alimentação. Eu tenho palpitações quando ouço/leio que fulano largou de fulana porque ela engordou. Dói como um corte quando a desculpa de "saúde" está tão enraizada que não me escutam. Eu não duro um mês em aulas de dança porque minha imagem no espelho está totalmente deformada.

Eu duvido dos meus sonhos porque me fazem duvidar da minha capacidade. Porque eu não sou tão inteligente assim. Porque eu sou aquela iniciante em inglês que não se sente confortável para responder uma pergunta sequer. Porque eu não entendo de todos os assuntos do mundo e nem sinto vontade de entender alguns deles. Porque "não serve". Porque sou a chata que fica batendo eternamente numa tecla só e falando da mesma coisa "pro resto da vida".

Não me ensinaram a melhorar. Ao longo de 21 anos, devo ter ouvido uma ou duas vezes que eu era boa e que podia melhorar, se quisesse. Todas as outras tentativas de dizer algo parecido soaram como se eu fosse acomodada. Não me ensinam a conhecer meus limites e superá-los ou não, me ensinam que devo me forçar a mudar. Ou isso, ou aquilo. Ou ama, ou muda. Sempre pendendo pro muda, é claro. Não dá pra ter os dois de uma vez. Não dá pra avaliar. Não dá pra ter consciência, porque consciência me faria descobrir que alguns problemas nem são tão problemas assim e isso não pode. Não dá pra cuidar do que tem agora, é melhor continuar destruindo.

Eu me sinto estúpida porque não consigo fazer minha mente absorver que eu posso, sim, amar e mudar. Amar e reconstruir. Amar e avaliar. Amar e aceitar como está. Eu sinto raiva de mim mesma porque é como se eu traísse meus princípios. Sinto ódio porque deixo com que tudo isso fique acima de mim. 

Porque quem deveria importar aqui sou eu. Ou não?

Eu li esse texto aqui sobre se cercar de referências positivas e tenho tentado muito, mesmo, fazer isso. Mas é muito difícil e dói muito quando você está tentando reagir e tem que lidar com o que vem de fora. Corta, arde. 

Ao mesmo tempo, minha única saída é me manter firme exatamente a tudo que aprendi. Se eu acredito que todxs xs minhas/meus amigxs são capazes de se libertar, eu preciso acreditar que eu também seja. E eu não quero, um dia, me sentir a menina mais maravilhosa do mundo: eu quero apenas poder me sentir leve e ficar em paz ao assumir que estou bem.

1 comentários

  1. Acredito que para gostarmos de nós mesmos o primeiro passo é a análise do que podemos "melhorar" para nos sentirmos melhor. E digo isso não apenas no sentido físico, do corpo. Nossos pensamentos podem nos libertar ou nos prender. E, putz, é difícil pra caramba lidar com eles.

    Eu estou deixando de me importar tanto com a opinião dos outros e passando a fazer o que me agrada; antes eu não tinha coragem, por exemplo, de usar roupas que as pessoas do meu convívio não gostassem tanto (ou achassem muito diferentes); hoje eu não ligo mesmo para isso! E, veja só, por perceberem a minha segurança e satisfação com o que visto, essas mesmas pessoas já acham legal (e até fazem elogios) quando uso o que elas acham/achavam diferente. Uma coisa tão simples assim já me deixou mais leve e feliz.

    É aquela coisa do eu posso ser o que eu quero ser. Ou posso tentar pelo menos.

    Várias pessoas são inseguras em relação a elas mesmas, é normal, é humano. Mude, reinvente-se; ou apenas (e isso já é bastante) goste de quem você já é.

    (Del)

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.