crônicas e contos

Cacofonia de uma menina feia

21:49

daqui

01.

Ela era o que pode se chamar de mediana.

Não tinha qualquer característica que a fizesse se destacar na multidão. Ou, pelo menos, era essa a única forma que conseguia se enxergar, desde que descobrira quem era – como era, qual era sua aparência – há muitos anos, na primeira vez que se viu no espelho.

Obviamente, nunca foi o tipo de pessoa que chama atenção ou que tem melhores amigas (embora seja muito, muito fácil driblar a sensação da solidão). Era por isso, provavelmente, que desde sempre gostava de se esconder em meio a palavras. Lia, escrevia, inventava vidas que queria viver, que queria que fosse a dela. 

Criava suas próprias histórias porque sua realidade era vazia demais. Dedicava-se quase obsessivamente a um assunto que lhe interessava porque tinha medo. Um medo [irracional] de, já que não era bonita, não ser também inteligente.

Era claro que, com o passar do tempo, as cobranças e as comparações (vindas da família e, especialmente, de si mesma) aumentariam ao ponto de fazê-la desenvolver pequenos surtos de pânico e algumas crises de ansiedade.

Se pensasse bem, perceberia que havia sido criada a base de pequenos pavores. Não podia, sob hipótese nenhuma, “chamar a atenção”. Não podia, em hipótese alguma, falhar. Não podia tirar notas baixas, não deveria sequer pensar em sexo (porque devia se dar ao respeito, porque jamais seria respeitada, jamais seria querida). Deveria ser o exemplo. Deveria superar as expectativas.

Deveria ser boa o suficiente.

02.

Lembrava-se que, desde os sete anos, sonhava em viver uma história de amor. Seu desejo, estimulado pela Disney e outros contos de fadas, a fizera quebrar a cara praticamente todas as vezes nas quais nutriu esperanças em relação a alguém. 

Na verdade, quebrou a cara todas as vezes.

O alívio, no entanto, é que às vezes as pessoas são recompensadas de alguma forma.

Cinco anos após descobrir que queria se apaixonar, conheceu o amor da sua vida. Mais cinco anos e estaria retomando contato com o cara que podia até não ser o mais popular ou seguir o padrão incentivado (e idolatrado) por suas amigas, mas com certeza era o mais interessante que já havia conhecido até então.

Nunca soube dizer o que lhe chamava atenção, mas sempre foi meio Amélie Poulain no que dizia respeito a pequenos detalhes. 

Talvez fosse o sorriso que tinha quando estava com vergonha. 

Talvez fosse [apenas] o sorriso.

Ele era também um cara prestativo. Lembrava-se de dormir encostada em seu ombro cinco anos atrás. Lembrava-se também de disputarem o banco ao lado da janela – e sabia que seu sorriso era querido desde então.

Três anos foram o tempo que precisaram para estruturar toda bagunça que sentiam. Os tais três anos foram sensíveis, mas os retornos e as tentativas de consertos foram o que a fizeram permanecer.

03.

Os últimos dois meses haviam sido os melhores dos últimos tempos, mas não havia se livrado totalmente de seus próprios monstros – que, de tão angustiantes, às vezes escapavam e jogavam-se para cima de outras pessoas.

A diferença é que, agora, sentia-se confortável em fazer planos com aquele cara. Sentia-se confortável ao imaginar que tinha garantias, sentia-se menos boba ao pensar que se encaixava perfeitamente no abraço de alguém – não importa o quão clichê e piegas isso pudesse soar.

Ainda era, em muitos momentos, uma criança assustada. Mas finalmente tinha alguém que a ajudava a enxergar-se melhor.

Escrevi num momento de angústia porque 01 tinha cismado com o título e 02 fazia muito tempo que não escrevia um conto. A ideia era ter continuação, mas não sei se levarei pra frente. Espero que gostem!

7 comentários

  1. Como assim não sabe se vai ter continuidade? Ta louca? Tem que ter continuidade, viu?!!!
    Lembrou, de certa forma e guardado as devidas proporções, o livro Um dia, adorei isso.

    http://www.novaperspectiva.com/

    ResponderExcluir
  2. Vou ficar muito triste se não tiver continuidade, viu? O conto está incrível! E o título é, realmente, maravilhoso.
    E eu adorei como o texto ficou real, carregado de sentimento mesmo, especialmente essa coisa do não ser o suficiente, que acho que todo mundo passa algum dia.

    Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Eu sou grande fã destes pequenos contos que nos deixam com expectativas para ler mais sobre o que ele conta. Enfim, deu até vontade de postar alguns que escrevi a anos atrás... Parabéns pelo blog, muito sucesso e felicidade. Estou colocando você na minha lista de leitura fixa. Um beijo e um Cheiro, Grazie.

    ResponderExcluir
  4. Demorei tanto pra vir ler seu texto e quando cheguei aqui não soube o quer falar. Queria poder escrever tudo o que já conversamos esse tempo todo, mas você já sabe de cor-e-salteado, moça. Toda beleza e admiração só saltam aos olhos daqueles que nos veem por detrás das lentes do amor. Porque a gente sabe que é sincero, ainda que com toda eclosão que esse sentimento nos provoca.
    Adoro te ler, flor!
    Beijo

    ResponderExcluir
  5. isso mesmo continua isto hein?
    quero ler
    seguindo teu blog retribui?
    www.portaldebeleza.com

    ResponderExcluir
  6. Fran, que perfeição de texto foi esse? Deu uma vontade de ler mais e mais e mais...
    Acho que como estou passando pela fase 02 me identifiquei demais! E espero poder chegar com essa doçura na 03!
    E esse título?
    Por favor, espero continuação! haha
    Beijo :*

    ResponderExcluir
  7. Seu texto, principalmente o 1, veio cm um baque em mim. Não há nem o que comentar. Não sei se está falando de vc, mas me descreveu totalmente.

    ResponderExcluir

Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.