crônicas e contos

as coisas quando deixam de existir

13:01



- Posso saber o que você faz aqui?

Júlia havia acabado de chegar a sua casa. Bufando. Encharcada devido a chuva que a pegara de surpresa. Tentava se confortar com a ideia de que nunca mais precisaria pisar naquele maldito escritório. Sairia de lá, sumiria dali. Deixaria esquecido naquela cidadezinha infernal tudo que a impedia de viver. Viveria seu sonho. Fosse ele qual fosse.

- Tô aqui pra falar com você.

Mas ele estava ali. Encostado no muro de sua casa, ao lado da entrada, apoiando um pé na parede. Pablo. Aquele que deveria tê-la salvado, afinal, não é isso que o amor faz? Aquele que supostamente a amava. Era frustrante pensar em quanto tempo havia perdido.

- Uhum.

Abriu a porta. Jogou a bolsa em um canto qualquer no chão da pequena sala escura. Ele entrou logo em seguida, em silêncio. Fechou a porta. Sabia que a pior tempestade acontecia ali dentro. Seguiu Júlia até o quarto. Deu de cara com uma mala aberta em cima da cama.

- Desembucha – esbravejou a menina.

- Você sabe... Isso é tão exagerado.

- Aham.

- Cara... Para com isso.

- Não rola.

- Olha, sério. Para com isso. Tá chato. É chato. Não precisa tanto...

- Hum.

- Não foi nada demais. É uma fase.

- Fase. É.

Duas calças, três blusas, seu vestido favorito. Algumas calcinhas, meias e sutiãs. Não precisava de muito. Um casaco. Pequenas pilhas de roupas ao redor da única mala aberta.

- Você está exagerando.

- Estou.

- Você é tão...

- Tão?

- Nada.

- Fala.

- Esquece.

- Fala, porra!

- Radical.

- Ah.

- Desculpa

- (silêncio)

- Mas é verdade.

Roupas separadas e dobradas. Documentos, cartão do banco, uns trocados e remédios, especialmente os que a faziam dormir. RG e passaporte, não poderia esquecer. Tudo colocado em uma bolsa de mão. 

- Não acho que você saiba o que tá fazendo.

- Pena.

- Porque parece muito...

- Radical. Aham.

- É.

- (silêncio)

- Olha, não seja chata. Pare com isso. É bobagem.

- Tá.

Mala fechada.

Casaco? Ok. Bolsa de mão? Ok. Guarda-chuva? Ok. Botas? Ok.

Caminhou em direção à saída sem sequer olhar para os lados. Abriu a porta.

- Pablo?

- Que é?

- Não me procura. Não tenta. Volta pra Colômbia, pro Uruguai, pro raio que o parta. Mas esquece que eu existo. Mais fácil: continua não se importando comigo.

- Júlia, eu...

- E já que tá aqui, tranca essa porta e entrega essa chave pra vizinha. Ela sabe o que fazer.

- Júlia, para.

- Cansei disso. De você. De me sentir um erro o tempo todo. Cansei de gente me dizendo o que fazer e como e o quê e quando sentir.

- Júlia, nós...

- Não existimos mais.

Entrou no táxi que acabara de chegar. À medida que tomava distância, sua visão ficava embaçada. Afastar-se bloqueava sua visão do passado, a manteria longe dos problemas.

Exatamente como deveria acontecer.


5 comentários

  1. Isso meio que me lembrou do jeito que eu terminei meu namoro haha :x foi assim, pá pum, não dei tempo de ele falar nada, não teve papo, teve uma pessoa arrumando suas malas e caindo fora, algumas lágrimas é claro, não somos de ferro, mas é... Acho que ela fez o certo.

    beijos sis ♥

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  2. Que lindo, Fran. Sempre é complicado quando acaba, mesmo, mas pelo menos rende boas histórias. Também sou dessas como a Júlia: radical. Ou é tudo, ou nada. Foi assim que "eu" terminei o namoro com o ex: ele me disse que não sabia se me amava mais e pediu um tempo de experiência, eu terminei tudo logo de uma vez. Em cima do muro não é bom. Mas de qualquer jeito a gente sai machucada.

    Beijos.

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  3. Eu ainda tô tentando imaginar o que o Pablo ia dizer. E o que aconteceu pra Júlia ir embora assim.

    Aguardo um epílogo.

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  4. Oi,
    adorei o texto. Mas é de despedida, despedidas são tristes!
    Beeijo!!
    Meus Antídotos

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.