crônicas e contos

Por estar no seu campo de visão

13:56



Eu desejei, desde o momento em que o vi entrar no ônibus, estar no seu campo de visão.

Ele era exatamente aquele tipo de cara que me deixava encantada. O tipo de cara que não carregava máscaras, que tinha o olhar vago e transparecia histórias.

O tipo de cara que eu fantasiava sentando ao meu lado, perguntando sobre o livro que eu lia. Envolvendo-se na minha história.

Ele se sentou no banco ao lado do meu. Usava fones de ouvido e consumia a melodia de olhos fechados, sorrindo o sorriso que eu gostaria que fosse direcionado a mim. Tinha uma aparência relaxada e estranhamente reconfortante.

Eu desejei estar no seu abraço.

Observá-lo ali fez com que eu me distraísse. A imagem dele se misturava à imagem dos personagens do livro que eu carregava no colo. 
Quis que ele fosse um daqueles personagens. Que se apresentasse a mim como quem se faz estar presente pelo tempo que for. Quis que ele segurasse minha mão. Que nos esbarrássemos sem querer e tivéssemos, assim, o primeiro contato físico.

Quis que ele não fizesse parte apenas das histórias que eu criava para mim mesma enquanto me dirigia ao trabalho, todos os dias, apesar de... apesar de não vivenciar uma sensação como aquela havia muito tempo.

E então, ele me olhou.

Sorriu seu melhor sorriso – que, obviamente, disparou qualquer indício de timidez em mim, revelando-se involuntariamente através das bochechas rosadas. Perguntou o que eu lia. Parecia deprimente responder.

Cem anos de solidão, eu disse.

Ele carregava consigo um exemplar surrado de Amor nos tempos de cólera.

Desejei profundamente acreditar em quanta poesia existira naqueles cinco minutos (ou menos?) da minha vida.

Nos levantamos juntos. Desceríamos no mesmo ponto. Comecei a questionar se tomaríamos um café, caminharíamos juntos a longa avenida que nos esperava ou trocaríamos telefone.

Nada aconteceu.

“Eu vou pra lá”, arrisquei dizer. Ele iria para o lado oposto. Não pude perguntar se o veria mais vezes por ali. Não pude sentir seu abraço de despedida ou dar-lhe um beijo no rosto. Nossa última troca de olhares parecia desejar um “te cuida”.

Eu ainda não sabia seu nome.

E ainda assim, ele se despediu da minha história.

(daqui)

Fazia muito tempo que eu não postava uma crônica por aqui, né? Essa foi inspirada no post de um amigo meu. Talvez porque eu ainda sonhe em ser o "amor de metrô" (ou de outro meio de transporte rs) de alguém... Ou talvez eu só seja fã de amores platônicos. PS: Impressão minha ou existia uma comunidade chamada "amores de metrô" no orkut? Saudade 2005.

9 comentários

  1. que bom que gostou do blog fran *-*

    que linda sua crônica ^^
    adorei, as vezes sonhamos mesmo com amores platônicos, eu antes de namorar, sonhava que encontraria o meu principe encantado no ônibus ou andando na rua ahuhaua, é normal :D
    quem sabe você não encontra né? ahuahuaha

    beijos :*
    boa semana
    japona.mairanamba.com

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  2. que lindo.. e quem nunca foi o amor de alguem assim em qualquer lugar por alguns segundos? rsrsrs

    beijos

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  3. Que doce! Ou será que foi só porque li comendo uma colher de creme de ovomaltine? Bom, só sei sei que o creme acabou junto da crônica, e eu fiquei com vontade de mais ovomaltine e de mais romance... Cadê o menino voltando atrás, surpreendendo a garota a cutucando no ombro e dizendo "Meu nome é Fulano, e o seu?"? Cadê, Fran, cadê? :(

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  4. Que crônica linda! Quem nunca viveu algo assim, de esbarrar com o numero certo e ter de se despedir antes de trocar os telefones, os nomes, as vidas? Adorei.
    http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/

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  5. Que crônica linda!!!
    Amei seu blog, e tomei a liberdade de te recomendar na minha página (facebook.com/euliporaii)

    beijos linda!

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  6. Ah os amores platônicos rendem as melhores crônicas, inclusive essa. <3

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.