cotidianices

do que eu nunca falei pra ninguém

18:14

daqui.
O que eles deixaram foram estes três postulados: importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. - Eles; Caio Fernando Abreu

Eu nunca precisei encarar a morte de uma forma mais próxima. É claro, conheci gente que perdeu entes queridos e estive perto de alguns deles da forma que pude e de tal forma que a dor deles me doía também. Por causa de "A menina que roubava livros" eu sempre tentava imaginar quais cores pairavam no céu naquele momento. Mas até então não havia perdido ninguém tão próximo. 

Na última segunda eu perdi minha avó paterna. Vivíamos separadas por um pouco mais de 400 km, o que fazia com que eu a visse uma ou duas vezes por ano, no máximo. Não posso dizer que a ficha já caiu. Em um período do dia eu estava contando ao meu pai da minha aula experimental de natação e ele ria de mim. No período seguinte ele voltava muito mais cedo do trabalho, anunciando, quase sem voz: "minha mãe morreu e eu tô indo pra Minas".
Segundos depois eu derramava algumas lágrimas por encontrar uma foto do meu pai com ela perdida no computador enquanto mandava SMS pra alguns amigos (que, num geral, foram capazes de me confortar por inbox/sms/tweet com o mais simples "nem sei o que dizer").

Uma semana antes meu pai havia planejado passar o feriado com ela em MG. Ela nunca mais vai vir passear bem cedo em casa para comer bolo escondido das filhas. Ela foi enterrada dia 9 de outubro, aniversário da minha irmã, o mesmo dia em que ela e meu avô completariam 55 anos casados. Diz meu pai que meu avô só abriu a boca para dizer que ela o havia deixado depois de 55 anos. "Cuida bem da tua mãe porque a pior coisa que tem no mundo é perder a mãe", foi o que meu pai me ensinou quando chegou em casa. 

É impossível não pensar em coisas mórbidas e lembrar que um dia passarei por isso. Minha mãe e meus futuros filhos também. Também é impossível não pensar se terei passado 55 anos ao lado de alguém, se terei me tornado quem quer que eu queira ser ou, ainda, quem terá permanecido comigo nesse (espero que) longo caminho que terei vivido. Dizem que as pessoas sentem quando seu momento está chegando e que foi assim com minha vó. Eu queria poder não imaginar como vou passar por isso, porque simplesmente odeio despedidas.

Algumas lições podem ser aprendidas com tudo isso. "De tudo, o que ela deixou foram três postulados...

A primeira, uma adaptação de "cuide bem do seu amor": cuide bem da sua família e de si. Eu devo cuidar deles tanto quanto eles cuidam de mim e por outro lado, devemos cuidar de nós mesmos. Eles são a única certeza da minha vida e os responsáveis pela maior parte do que me tornei e aprendi.

A segunda coisa faz jus a um trecho do texto "Um dia você aprende que". Não importa o quanto uma situação seja triste, desagradável ou incômoda: é nela que você descobre quem se importa tanto quanto (e com) você, ainda que não saibam ou tenham o que falar. Às vezes a gente não precisa de alguém que nos diga uma coisa super filosófica ou genial, só de alguém que esteja disposto a nos ouvir. Ninguém vive sozinho.

Por último, a mais óbvia e geralmente ignorada de todas: viva. Arriscar, deixar arrependimentos e culpas de lado, tentar sempre ver o lado bom de todas as coisas, assumir que todo mundo tem algo a nos ensinar, demonstrar... Isso é viver. Bem como dizia Lispector "a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre".


Fala pra ele que ele é um sonho bom
Que mudou o tom da tua vida
(...)
Ah, se tu soubesse
Não contaria pra ninguém
Fala pra ele o que nunca falou pra ninguém
Pra ele também.
Pelo Interfone - Cícero

14 comentários

  1. Ai, que aperto no coração! Me deu uma baita vontade de te abraçar agora, Fran! Mas, guria, deixa eu te dizer umas coisas...
    Já perdi meus dois avôs e um bisavô, que foi de longe um dos homens que mais marcaram a minha vida. Eu chorei muito e choro todas as vezes que lembro que nunca mais, neste planeta, verei os olhos azuis do meu bisavô e sentarei do lado dele para ouvir mil e uma histórias sobre "a guerra vivida por um pracinha na Itália". O cara era meu herói, o meu maior ídolo e, bom, ele não está mais aqui. Mas nunca, jamais vi a "partida" dele como uma despedida. Foi apenas um até logo. Não sou a mais religiosa, mas tenho a certeza de que existe algo mais... Sabe por quê? Porque o amor, Fran, é algo muito mais do que apenas mundano, como nós estamos agora. Estamos.

    De resto, concordo com tudo. Enquanto estamos, que façamos o melhor, sempre. Não dá para saber quando estaremos em outro lugar.

    E lembre-se: "As pessoas que amamos nunca nos deixam de verdade.", como bem colocou Sirius Black.

    Fique bem, amiga. Muita força para ti e para a sua família neste momento. <3
    Beijos

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  2. Meus pêsames :( não sei mesmo o que dizer,mas acho deixar um legado que é bem compreendido é o que todos podem devem desejar de suas vidas,além de ser querido e ter amor pela família,já que ela é uma espécie de mundo no qual nossa presença é indispensável - ao contrário desse mundão em que vivemos,provavelmente não vamos mudar a vida de todos, mas acho que mudar a vida de "alguém" já é algo bastante grande-.A minha ficha nunca caiu desde que minha vovó morreu,algo como se ela estivesse apenas esperando pelo Natal.Mas a saudade não é necessariamente ruim,é retomar,mesmo que por lembrança,a presença dela.

    beijo

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  3. Fran, não tem muitas coisas que possam ser ditas num momento como esse. Tudo parece meio clichê, pouco sincero. Mas... eu sinto muito. Pela perda da sua avô e pelos sentimentos e pensamentos ruins que isso acaba por provocar.
    Já te contei que a minha história é bem parecida, por isso saiba que realmente não cabe nenhum tipo de culpa ou remorso pelo afastamento de vocês. A vida tem dessas coisas. O melhor que você pode fazer é aprender com ela e com o que ela deixou. Fica bem. Precisando, estou aqui. <3

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  4. Aí que são nem oito horas da manhã, eu estou no trabalho esperando dar meu horário e tô aqui morrendo de chorar com esse post, que é o mais sincero post de de luto que já li.
    O conselho do seu pai... <3
    Não sei mais o que te dizer, Franzinha.

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  5. Beuxa =/
    Que coisa triste.
    Eu ainda tenho minha vó paterna, nenhum avó, ela é só o que me resta. Mas já vi a morte de pertinho. E é ciclo, viu?
    Sinta-se abraçada infinitamente.
    ;*

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  6. Que triste. Sinto muito por sua perda. Infelizmente nao sei o que é isso, nunca conheci meus avôs!
    Pelo jeito que voce fala dela, ela deveria ser uma pessoa maravilhosa!

    beeijos.

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  7. Poxa vida, moça. Que coisa triste. sabe, já estive em situação de extrema semelhança. Perdi também minha avó paterna, a mulher que me educou e que me ensinou a mar a leitura. Ela foi embora quando eu tinha dez anos. É, de fato, uma perda irreparável.
    Mas após o falecimento dela, fiquei com a lição de que aprendi a ser forte. Talvez isso venha a bastar. As pessoas necessitam de deixar-nos. É um mal necessário.
    Abraços, fique bem.

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  8. Meus sentimentos.
    Parabéns pelo maravilhoso texto!

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  9. Fran,

    é importante que você perceba que, ao escrever sobre isso, já quer dizer que você é forte para lidar com a situação. Todos nós, ao longo de nossa vida, passaremos por esse momento. Morrerão pessoas que amamos - perdi meu pai - mas, perdê-los? Isso não.

    Um beijo,
    meus sentimentos.

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  10. Pois é, Fran, é nessas horas que a gente para pra refletir sobre a vida. E sabe, faz parte. E, em certa medida, até faz bem. Sentir essa dor faz parte e é necessário, porque guardá-la sufoca, mas não podemos deixá-la nos dominar. Apenas se lembre das coisas boas, tenho certeza que logo tudo se transformará em saudade. E saudade da boa, como dizia minha também falecida avó paterna.

    Beijo, flor.

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  11. Enchi meus olhos de lágrimas ao ler seu post. Perdi minha avó materna há mais ou menos um ano, e o avô do meu namorado, que eu considerava meu avô também, morreu há pouco mais de um mês.Parece óbvio, mas depois desses dois ocorridos, eu comecei a ter pavor de morte; Começo a ver morte como a tristeza se materializando sobre um grupo de pessoas. É horrível, desgastante. Mas depois de um tempo, isso passa, e colocamos em prática todas essas lições que aprendemos, principalmente a de que devemos valorizar as pessoas ao nosso redor.

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.