cotidianices

Eu me rendo

16:46

Quando eu tinha sete anos enviei uma carta a uma editora dizendo que tinha criado uma história infantil e queria ser publicada. Obviamente recebi um não. Aos oito anos comecei a fazer natação e poucos meses depois aprendi a mergulhar, apesar do monstro do "E se eu não conseguir?". Aos 12 prestei uma prova teórica para fazer aulas de música, mas eu só tinha feito uma aula de teoria musical na vida e não tinha nenhum contato anterior com isso. E passei. Aos 14 prestei minha primeira prova séria na vida, um vestibulinho para entrar na ETEC. Minha pontuação foi baixa para os meus padrões, mas entrei. Aos 17 comecei a contribuir com textos para o site da escola. Ainda aos 17 consegui uma bolsa integral na faculdade. Aos 19 organizei um dos dias do Mídia Mix na faculdade.

Aos 15 eu fiquei com um menino que considerava meu melhor amigo e nunca chorei tanto na vida quando vi que tinha perdido a amizade dele por tão pouco. Aos 17 fiquei com um menino que hoje é meu melhor amigo e que apesar de batermos o recorde de brigas, poderia tranquilamente chamá-lo de irmão. Deve ser por isso que eu sempre tive uma aversão muito grande a qualquer revista que impõe regras e joguinhos para relacionamentos ou coisas do tipo: elas nunca chegaram nem perto da minha realidade.

Aos 15 anos eu tentei, pela primeira vez na vida, andar a cavalo. Aos 17 andei pela primeira vez de Maria Fumaça e foi aí que descobri o quão apaixonada por trens e afins eu sou. Aos 16 conheci alguns autores nacionais que hoje não sei o que seria da minha vida sem suas histórias. Aos 17 conheci e entrevistei a Belinda, e foi a primeira vez que falei em espanhol "em público". Aos 15 eu conheci a Thalita Rebouças. Aos 15 fui ao meu primeiro show dO Teatro Mágico e a Lígia Moreno me deu oi de cima do palco. Aos 16 fui, pela primeira vez, a um barzinho. Aos 17, num outro show dO Teatro Mágico, o DJ HP se lembrou de mim e pude conversar sobre feminismo com a Gabi Veiga e outras meninas maravilhosas.

Eu nunca tentei passar numa faculdade pública (embora tenha descoberto que sim, sou feliz onde estou). Não tentei enviar novamente algum trabalho meu para editoras. Ainda não aprendi inglês. Não fui à Marcha das Vadias, e não foi por falta de vontade. Não dancei na festa de formatura. Nunca pintei o cabelo, fiz luzes ou realizei nenhuma vontade capilar mais ousada que já tive. Não passei de 60% das poucas provas de concursos públicos que fiz. Não conheci um estúdio de TV e nem sei como ele funciona. Assim como uma redação ou uma editora. Nunca fui pra Ouro Preto e nem conheci a livraria El Ateneo.

Eu ainda sou a pessoa que tem medo de tentar, que não sabe o que fazer e que quer mudar algumas (ou muitas) coisas em si, mas não sabe como. Sou aquela pessoa que é insegura quanto a si mesma, que se desespera e chora com medo de algo dar errado e que se subestima. Ou ainda a pessoa que sempre vai achar que nunca fez "nada demais" nessa vida. Só eu sei o quanto cada uma dessas coisas que "não foram" pesam em mim. E ainda assim, não sou um exemplo.

Acontece que por menores que sejam as coisas que conquistei, elas construíram quem sou e apesar de existir muito mais coisas que eu não fiz, aprendi a acreditar que quando queremos, é fácil. Não dói e não vira sacrifício. É simples. E que não adianta achar que estou incomodando, que tudo que faço é errado. Não adianta me autossabotar e boicotar... Eu não teria orgulho de mim daqui 10 anos vendo eu me sentir assim. 

Nisso tudo, eu descobri que a gente não tem que aprender a lidar com as pessoas ou com o mundo: temos que, primeiro, aprender a lidar com nós mesmos. Nossos sentimentos, nossos sonhos, nossa aparência, com o que fazemos e com o que pensamos. É a nossa vida e a nossa história e tudo isso nos pertence. Sem medo. Sentir não dói. Sonhar nunca matou ninguém.

Aprendi também que pode ser que eu não consiga tudo que quero ou que o que quero não saia exatamente como o esperado. Mas que devo arriscar. Se eu ficar me escondendo numa redoma de vidro, como vou evoluir? Isso não é saudável. Nós aprendemos quebrando a cara, caindo e tentando de novo, não aceitando o medo. Foi tentando que conquistei algumas das coisas que queria, como citei aqui. Como eu disse pra Gabs, acho que devemos fazer da nossa vida uma adaptação do "Hoje vou Assim": fazer um "Hoje estou assim, hoje farei isso".

Pode ser que depois desse texto eu tenha uma mudança notável, pode ser que eu só mude por dentro ou pode ser que eu ajude alguém, mas que não consiga aplicar na minha vida essas ideias. Mas dizem que o primeiro passo é reconhecer. Enquanto isso a única coisa que posso afirmar é que sim, quero aprender a ser melhor. Pra mim.


OBS: Gabs, te dedico! Também dedico a mim e a todos vocês que sentem medo de se sentirem felizes.

23 comentários

  1. Amo essa sua foto.

    O resto das palavras me fugiram. Texto lindo, emocionante, Fran.

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  2. Que lindo, Fran! Senti muita força nesse texto!
    Acho sim que tenho medos que me atrapalham. Quero mais é chutar cada um deles e ser feliz com minha própria história. Nós vamos conseguir!

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  3. É mesmo difícil falar alguma coisa depois desse texto tão sincero e intenso. Acho que só me cabe te parabenizar por ter a coragem de se expor dessa forma para que pudesse transmitir essa mensagem mais do que essencial para todos nós.
    Agora, longe de mim querer dar ALGUM palpite sobre a sua vida, mas quando você diz que ainda tem medo de tentar você parece se basear no seu parágrafo de "nãos", todavia você não pode se esquecer do parágrafo mais acima, onde você conta o tanto de coisas que você já fez. E não parecem coisas pequenas para mim. Eu não tenho a pretensão de 'psicologizar' aqui, muito menos de tentar te dizer o que você sente, contudo, eu tomo a liberdade de confessar que, só pelo pouco que você relatou aqui, já ficou bastante claro pra mim que você é uma vitoriosa em muitos aspectos, de verdade - você sabe disso, certo? Não são elogios vazios com o propósito de te animar, é só que isso sinceramente me chamou atenção no texto, essa sua disposição pra fazer as coisas acontecerem.
    No mais, obrigado também pelo post.
    Beijo

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  4. Já pode escrever uma autobiografia!

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  5. Bom demais! É assim mesmo! As nossas conquistas e nossas derrotas e tudo aquilo que a gente quer e quis e tentou e desistiu, e mais um monte de coisa que foge ao nosso controle fazem com que sejamos as pessoas que somos!
    E devemos valorizar e nos importar com cada uma delas. Olhar para as derrotas ou desistências e não ficar decepcionado, mas aceitar que naquele momento era aquilo que devíamos ter feito, porque foi aquilo que pareceu mais certo. O "eu devia ter feito de tais outras formas" não funciona muito bem pra mim...
    Porque da mesma forma que não faz sentido falar "se eu fosse aquela pessoa, jamais teria feito essa escolha", não faz sentido julgar com a cabeça que temos no presente, as escolhas que fizemos no passado. Somos pessoas diferentes.

    Claro que não é simples assim, que a gente não pode justificar tudo dessa forma e não nos responsabilizar pelas nossas escolhas, não é isso... mas é ver de uma forma mais leve, menos cheia de julgamentos. De uma coisa tenho certeza, queremos o melhor para nós mesmas! E fazemos escolhas com base nisso. Então, de verdade, vamos confiar que as escolhas que fizemos por nós foram as que julgamos ser as melhores naquele momento, né? :)

    Beijinhos!
    ;*

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  6. Me tocou de verdade, nem sei o que comentar.

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  7. af sis <3
    só posso te dizer que te amo e admiro um milhão de vezes mais depois disso e eu queria MUITO copiar esse texto inteiro em todo e qualquer lugar pras pessoas lerem de tão incrível que é

    deu vontadinha de chorar esse texto, mas relaxa, é choro bom ta?
    <3

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  8. Muito bacana seu texto, suas experiências e suas conquistas. Você escrever muito bem, aliás.

    ;*

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  9. MEU DEUS. No estado q eu to hoje, esse texto caiu muito bem pra mim. Sério. Me identifiquei com bastante coisa e acho q realmente vai me ajudar em alguns aspectos. Eu sou bem assim. Fico me boicotando, achando que não sirvo pra nada e que nada do que eu fizer vai dar certo ou ser bom pra alguém.

    Beijos,
    Thainá =)
    http://tubaiina.blogspot.com

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  10. se você for tão jovem como aparenta no texto,não se preocupe. você ainda tem muito o que viver e realizar.

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  11. Ai, Fran. Esse post foi lá no fundo. Estou feliz de ter lido isso, de verdade. E não sei mais o que dizer, beijo.

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  12. Adorei, Fran! Engraçado que ultimamente tenho pensado muito nisso, sabe? Sobre as coisas que eu tentei e fiz. Tenho levado como lema pra minha vida a seguinte questão: o que eu tenho a perder com isso?
    Ajuda bastante. Na maior parte das vezes, a gente vê que o pior que pode acontecer é levar um não, é não chegar lá, é não passar. O detalhe é que nenhuma dessas frustrações é equiparável àquela que vem quando a gente nem se dá ao trabalho de tentar.
    Penso muito sobre isso e curti sua reflexão.
    Beijo!

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  13. Nem em tudo você pode ter sucesso, se não houver falhas e derrotas, a gente acaba desvalorizando as conquistas e vitórias.. Uma merda, mas a cabeça funciona assim.

    E meu, você ficou cara a cara com Belinda, eu já teria orgulho de mim pro resto da vida se isso tivesse acontecido comigo!

    PS: Na minha opinião, meninas que agem vide dicas de revista, só conseguem relacionamentos comuns e fúteis... Amor não é jogo, é troca.

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  14. Amei seu post minha linda, adorei, me identifiquei com muitas coisas....meu você é uma pessoa muito privilegiada que sabe levar suas experiencias como aprendizados e nisso a maioria das pessoas pecam, você tem caminho traçado para o sucesso!

    Beijos,

    Gisele

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  15. Ô minha amiga...
    É por essas e outras que eu tenho tanto orgulho de você, sabe?
    Quem me dera eu ter a metade da coragem que você tem...
    Quando penso em coisas que realizei percebo o quão pequenas e pouco valoroza elas são...E nem é só uma mania de menosprezar meus feitos não..É por que minha falta de coragem e determinação fizeram com que eu disperdiçasse minhas inúmeras chances de fazer algo um pouco melhor...É chato mas meus inúmeros arrependimentos inclusive os amorosos me servem de alerta para eu conseguir fazer as coisas diferentes, para ir construindo aos poucos uma trilha de orgulhos assim como você fez.Eu sei que às vezes aos trancos e barranco mas é isso que me deixa mais feliz em ver você: é que de uma forma ou de outra você consegue aos poucos fazer o que te faz feliz e o que te faz crescer como pessoa, como profissional...

    Me desculpe um pouco pelo desabafo fora de hora.rs
    Te amo.


    Ps.:Aaaah acrescentaria a matéria da Revista capricho sobre o Free Hugs que você ajudou a promover em sua cidade, foi um conquista e tanto.;)

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  16. Muito bom, Fran! É tão bom quando a gente consegue se analisar como se olhasse de fora, e de repente, aprende a se sentir bem.. :)

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  17. Ah,mas que lindo !
    Engraçado você ter escrito isso logo quando passo por algo assim.Minha mãe me fez uma proposta incrível e eu me sinto indigna de aproveitar.E é claro que eu fiquei me analisando por dias e me questionando por que eu acho que tenho de sofrer muito para conseguir as coisas.Talvez o grande lance é se conquistar antes de tentar conquistar qualquer coisa.E,ah,sua adolescência foi/é bem mais interessante que a minha.Só eu achei demais você ter entrevistado a Belinda ?

    beijo

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  18. Esse texto é tão lindo que nem consigo comentar. Orgulho de ti, é tudo que sinto! <3

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  19. Ah menina, pode ter certeza de que me sinto exatamente assim. Eu com o tempo parei de tentar me forçar as coisas, comecei a viver um dia de cada vez.
    Você conquistou muitas coisas viu? Sua adolescencia foi bem mais incrível que a minha, pode apostar.

    Beijos.

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  20. Sim, eu me identifiquei com seu texto!
    Eu sempre me preocupei mais do que com o que as pessoas pensavam de mim, do que com o que eu realmente era e queria, mas de um tempo pra cá, venho me importando mais comigo, não, isso não é egoísmo. Venho me preocupando com o que é bom pra mim. Parei de tentar agradar e se sentir infeliz. E concordo com você, que não devemos nos preocupar em lidar com as pessoas ou o mundo, mas com nós mesmos. Se nós não nos entendermos, quem irá, não é?
    Adorei o seu texto e tenho certeza que você tem um caminho maravilhoso pela frente. Só pelo fato de reconhecermos tudo aquilo que nos aflige, já é meio caminho andando.
    Parabéns pelas conquistas e pela perseverança!
    Beijão!

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  21. Esse texto me fez lembrar de uma coisa que sempre comento em conversas. Estamos a todo momento condicionando nossa felicidade. Serei feliz se passar na faculdade, se tiver um bom emprego, se conhecer meu ídolo, se for mais magra,etc. É lógico que sonhar é o que motiva a vida. Mas valorizar nossas conquistas tem que ser parte significativa dela. Parabéns pela sinceridade do texto fran, parabéns pelas suas conquistas e que você ainda conquiste muito mais!

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.