Capão Pecado

Capão Pecado, por Ferréz

15:46

"Querido sistema, você pode até não ler,
mas tudo bem, pelo menos viu a capa"
Quando comentei com Marquinho que havia ido aos Saraus no São Bento, não fazia ideia da quantidade de coisa que ele conhecia sobre o movimento e podia compartilhar comigo. Eu me sentia até perdida, afinal de contas, sou iniciante na questão da literatura periférica e dos movimentos sociais que esse pessoal realiza. Aí um dia, no laboratório de fotografia, ele me disse que tinha algo pra me emprestar.

Esse "algo" era o livro Capão Pecado, do escritor Ferréz. Um cara simplesmente foda (porque não tem palavra bonitinha que traduza meu pensamento em relação a esses escritores). Até então eu nunca tinha ouvido falar do Capão Redondo nem do que acontece por lá. Até então eu tinha aquela visão limitada e estreita de relacionar favela/periferia ao Rio de Janeiro e de dizer que "poxa vida, que vida sofrida a dessa gente... Mas se envolveu com o que não presta porque quis". Vergonha.



- O nome "campo de batalha" se deu porque é uma constante luta pela vida, tá ligado? Você tem que correr atrás de um emprego para se sustentar, tem que estudar para não ser manipulado, tem que ficar esperto com a polícia porque você é favelado, tem que ter consciência para não cair na porra da droga, tem que ter calma para não sentar o dedo nos nóia e uma pá de coisa que só um soldado da favela tem pra sobreviver. (Conceito Moral)

Eu devo ter enrolado algo como um mês pra pegar o livro e ler, e não sei explicar o motivo. Sei que não passava um dia sem pensar "tenho que ler esse livro" e imaginando o quão surpresa eu ficaria. Ontem acordei cedo, comecei a ler e lá pelas três da tarde já havia acabado. Eu simplesmente não queria parar de ler, não queria parar de conhecer a vida daqueles personagens pela metade e terminar "no dia seguinte".

Capão Pecado é escrito de uma forma muito simples, e quando eu digo simples quero dizer que ele é escrito praticamente da forma que falamos. É como se você tivesse ouvindo as pessoas conversarem, usando e abusando de gírias, sem se importar muito com a forma culta da língua portuguesa ou "frescuragens" do tipo. Sem se importar muito em manter uma única linha de raciocínio para narrar a vida dos personagens. Deve ser porque, de alguma forma, a vida de todos eles está interligada de algum jeito. E é exatamente por isso que o livro é bom.

O livro é dividido em partes e a abertura de cada uma delas é feita com o depoimento de alguém (como o Mano Brown, que aparece na primeira parte) e só de ler os depoimentos minha visão sobre "essa gente" foi mudando. E aí, a história: fala-se de Rael e a partir dele, de sua família (mãe doente, pai alcoólatra), de seu esforço para ajudar em casa, dos seus amigos, da família deles, do envolvimento de alguns com as drogas, dos sonhos de outros, do que fazem para sobreviver, dos problemas com a polícia e de como abusam do poder que têm, além de fazer uma crítica a várias questões da sociedade "elitizada".

E falando por mim, posso dizer que cada detalhe do livro te faz ganhar uma nova visão de mundo, afinal de contas, pode não existir um Rael de verdade, mas certamente a vida que foi descrita se aproxima muito da vida de outras pessoas. Te faz "descobrir" que embora sonhem, embora queiram melhorar, nem sempre tem essa chance ou alguma oportunidade, que eles não "escolheram" correr o risco de morrer a qualquer instante ou de perder um parente.

- "... um lugar em que você pode perder a vida num piscar de olhos, um lugar que é considerado o Pecado das periferias, um lugar chamado Capão Redondo." (Outraversão)

Capão Pecado não é, pra mim, um livro que você vai ler, ter uma lição de moral no final e deixar pra lá. Capão Pecado é um livro que você vai ler e vai te fazer pensar melhor todas as vezes que ver na TV qualquer coisa sobre a guerra do tráfico, todas as vezes que julgar alguém com uma condição não tão boa quanto a sua, todas as vezes que pensar que "são todos uns vagabundos, uns bandidos".

Capão Pecado foi o livro que fez com que eu me sentisse impotente, que fez com que eu desejasse poder fazer alguma coisa - por eles, por mim, por todos. Mas Capão Pecado foi também o livro que me fez agradecer por ter gente que ainda sonha e acredita que é capaz, ainda que exista toda uma sociedade o menosprezando... Porque Caio Fernando Abreu que me desculpe, nem ele foi capaz de mexer comigo como fez esse livro.

7 comentários

  1. Que impressionante, Fran! Dá pra perceber como esse livro mexeu com você. Eu nunca tinha ouvido falar dele e até estou jogando no google o nome para ver se acho mais alguma coisa. E é interessante que trate do caso de São Paulo, pois só tenho uma imagem do caso carioca e mil preconceitos sobre o outro.

    (www.caixinhadeopinioes.zip.net)

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  2. FRANZOCA!
    Que orgulho! Se a gente pudesse criar um mapa e os pontos vermelhos indicassem cada pessoa que tem uma ideia errada sobre a periferia/favela e os verdes indicassem as pessoas que compreendem melhor, seria lindo ver os pontinhos verdes acenderem, né?
    Não acredito que você tenha sido um pontinho vermelho, mesmo você afirmando isso, porque você é muito inteligente bjs. Mas agora seu verde tá brilhando lindamente e eu aqui torcendo pra um dia a gente saber como agir pra mudar realidades tão cruéis.
    Nunca acreditei nessa visão meritocrática de que bandido é bandido porque escolheu o caminho errado, que tem que matar todo mundo que cometeu um crime na vida. Pra mim isso é uma visão muito fácil de filhinho de papai com a caríssima bunda sentada em banco de escola particular com ar-condicionado e segurança na porta. Fácil falar no twitter e no facebook como os bandidos deveriam ser punidos.
    Mas você não, você é linda e esclarecida.
    Beijo! <3

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  3. Franzi, que lindo! Quero ler, fico morrendo de vontade de ler coisas assim. A propósito, uma amiga minha fez um documentário muito bom sobre a Cracolândia, me lembra de te mandar o link despues!

    Beixos! <3

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  4. Me deu vontade de ler, gosto desse tipo de livro! Lindo seu blog!
    http://fazdecontatxt.blogspot.com.br

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  5. Eu senti algo muito parecido quando visitei o assentamento do MST. É muito legal ver que nosso pensamento sobre as pessoas pode ser completamente diferente do que a realidade delas. É triste, na verdade. Bem triste. Enfim, gostei do texto e o livro parece ser legal! Faz sentido tu ter me mencionado para lê-lo, rs. Adoro ver gente que se aventura em coisas assim...
    Abraços!

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  6. Pedrada, né? É a "visão além do alcance"!

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  7. Pois então, vamos pedir ao seu amigo Marquinhos para me emprestar esse livro, hein?

    Falando sério, eu fiquei interessada. Eu gosto dessas coisas naturais, essas coisas que são de verdade a realidade da gente, e não futebol e samba, mas que às vezes são retratadas de forma infame. Pelo que você disse, Beuxa, não é assim. Despertou minha vontade.

    :*

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.