Pitacos

O dia em que eu conquistei a Liberdade.

14:53

(daqui)

São Paulo tem o dom de fazer com que eu me apaixone por ele a cada vez que piso “naquelas terras”. E eu não ligo que esteja chovendo, não me importo com a garoa e nem faço questão de abrir o guarda-chuva ou de pegar o metrô o mais rápido possível porque não ligo de tomar chuva em plena Avenida Paulista, por exemplo. Nem de passar pelos bairros que não são tão agradáveis a outros olhos.

Eu queria contar com isso uma fábula bonitinha sobre o dia em que eu conheci a Liberdade depois de uma discussão ou de me sentir dispensável no mundo (ou na vida de alguém, nunca se sabe). E terminar com um final feliz sobre como cada pequeno detalhe da Terra da Garoa fez eu me sentir viva novamente. E todos vocês achariam lindo e eu os convidaria para conhecer a Liberdade comigo.

Poético. Em todos os cantos São Paulo tem um quê de poesia, não acha?

Pois bem. Ontem eu conheci a Liberdade. E apesar de eu poder jurar que vi o Naruto atrás de mim ou que a qualquer momento um samurai saltaria do telhado de uma loja na minha frente e enfrentaria algum dragão (vi muitos filmes desse estilo na minha infância. Obrigada, pai), eu me apaixonei. De novo. Se São Paulo fosse um homem, seria o homem da minha vida, apesar de, quem sabe, fumante. Foi a primeira vez que passei por lá. Um domingo de feira. Um domingo de feira onde eu queria comprar tudo e qualquer coisa que me prometesse sorte-amor-prosperidade-equilíbrio emocional-riqueza. Todos os amuletos, chaveiros, olhos-gregos, yin-yangs e quem sabe até um quimono. Não porque eu prestaria uma prova dali a algumas horas. Mas porque, como dizem por aí, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Ou algo assim.

Eu provavelmente ignorei algum sexto sentido que tentou aflorar ali, prestando atenção na menina do cabelo cor de rosa choque e em uma mãe gritando em japonês com sua filha fujona.

Eu sou dessas, tão distraída quanto observadora.

Bom, atravessei a feira e tinha certeza de que estava ouvindo um som familiar. Poderia ser um CD. Não era. Como meus tios ignoraram meu alerta de “ouço algo”, contornamos a feira e foi o que bastava para que eu sorrisse de orelha a orelha: um senhor tocava violino. Nona sinfonia. Eu sei tocar também, pensei. “Essa você sabe, Fran?” “Sei sim, tia”. E descemos a rua, enquanto eu quase quebrei o pescoço para olhar o violinista, que me daria um provérbio caso eu pedisse alguma música antiga – dizia a plaquinha a sua frente.
Descemos outras ruas e na volta, um realejo. Um realejo de verdade, com um papagaio para tirar sua sorte, caixinha de música e tudo. Eu nem tive tempo de consultar minha sorte no realejo, só de quase quebrar o pescoço novamente enquanto ia embora cantarolando Teatro Mágico.

Fomos embora. Queria continuar ouvindo o violino e tomando sereno. Descobri que por lá existe uma Casa de Portugal e o prédio é a coisa mais linda desse mundo inteiro. E eu espero conhecer quando voltar a pisar no (meu) solo sagrado. Depois, demos a volta na Praça da República.

Sinceramente não ligo se você me acha estranha por não me derreter pelos caras que você acha um deus grego e ser avessa a beber porque vou te achar infinitamente estranha se discordar de mim que todos aqueles prédios são, no mínimo, a coisa mais linda do mundo. Sou fascinada por prédios antigos, qualquer um. Mas a Praça da República ganhou meu coração, não importa o quanto alguém se incomode com os muros pichados ou moradores de rua. É amor. Não importa o quão cinza seja, ainda é lindo. Assim como os muros.

Rumo a São Bernardo do Campo, fui tentando reparar dos dois lados o caminho todo. Vi declarações nos muros, como “euteadoro” e “eutequero”, ambas com a mesma letra. Vi algumas frases revolucionárias e li algo sobre estarmos nos afundando no nosso próprio chão. Entre outros desenhos e um stencil do Tim Maia.

Tudo isso pra mim é tão lindo e encantador quanto o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca. Tanto quanto a Livraria Cultura, da Paulista, por exemplo. Que não discutam sobre meus amores.

Não é que eu esteja apaixonada por alguém. De repente me apaixonei pelo mundo, ainda que mal tenha pisado na terra em que nasci e um problema tenha chegado via SMS. Ainda que eu tenha, mais uma vez, engolido choros (e não o coração) e qualquer coisa do tipo. Ainda que eu esteja me sentindo tão não importante, não especial, não indispensável e coisas assim. Comum como um chinelo velho, digamos – e talvez isso seja um tanto quanto teatral, mas que seja.

Porque mesmo me sentindo assim, eu posso ouvir o senhor tocando violino e mentalmente, pedir músicas e senti-las se transformando em provérbios. Posso fantasiar minha própria sorte no realejo e adotar o que eu quiser como amuleto da sorte, como o Pequeno Príncipe ao presentear o aviador com uma estrela, sem definir qual. Eu sou o Pequeno Príncipe e o aviador ao mesmo tempo, em meio à decoração vermelha e branca e aos prédios antigos com cara de castelos.

Porque agora eu sinto como se tivesse conquistado mais um pedacinho do mundo, ainda que por uma ou duas horas. Uma parte do mundo que agora faz parte de mim. Não pode ser alguém sem importância quem cria novos mundos, especialmente os particulares. 

E pra você que acredita que não há amor em SP: em cada centímetro de concreto pelo qual você passa sem olhar atentamente há uma razão pra você se apaixonar.

Devia ser sábado, passava da meia-noite.
Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse.
- Então eu vou com você.
(Caio Fernando Abreu)

22 comentários

  1. Adorei, Fran!
    Eu sou muito apaixonada pela Liberdade, embora tenha ido lá só uma vez. Num domingo de feira, como você.
    Não sou chegada a multidões e fuzarca,mas a confusão de lá não é linda de morrer? Queria tudo, queria todos, queria ficar lá pra sempre.
    Preciso voltar um dia e comer um sukiaky de novo.
    Beijo!

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  2. ''Não permita Deus que eu morra
    Sem que eu volte pra São Paulo...''

    São Paulo é realmente o contraste poético mais lindo desse país.

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  3. São Paulo é incrível mesmo. Não enxergo todos esses detalhes o tempo todo, talvez por morar aqui a vida toda, mas quando resolvo enxergar de verdade, vejo a maravilha de morar aqui. E não, não a troco por lugar nenhum no mundo. "There's no place like home". Eu viajaria o mundo inteiro, moraria fora alguns anos, mas precisaria ter a certeza de ela estaria me esperando de braços abertos, porque voltaria pra cá. Lindo texto, Fran.

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  4. AI que saudade da Liberdade, aquele lugar sempre foi como um santuário pra mim, sou capaz de ficar HORAS lá sem fazer nada, só olhando as lojinhas e andando pelas ruas.

    São Paulo é apaixonante sim, e me dá o maior orgulho de dizer que é >minha< casa e meu mundo particular.

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  5. Que lindo redescobrir algo assim, tão próximo e presente em todos os nossos momentos.
    E viva São Paulo, porque é de lá que surgiu essa menina flor que eu tanto adoro chamada Fran!
    Beijoos!

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  6. adsoroooooooooooooooooooooo adoro adoro
    a cidade
    amei o texto poxa
    quero falar assim de sentimento
    das coisas e da minha cidade

    o naruto foi foda huahusa

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  7. Vou destoar e dizer: nunca fui a São Paulo. E também nunca tive vontade até agora. Vai pra minha listinha, e juro que vou lembrar de você quando estiver lá, Fran! Ou quem sabe você mesma não me guia? Sonhar não custa, né. Também adoro construções antigas, por isso eu gosto de andar aqui no centro do Rio. É uma sensação inexplicável, tipo passadoXpresente.

    Beijos

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  8. Que bom que estpa assim...feliz.
    Tenho uma vontade muito grande conhecer o bairro da liberdade.*_* Mas o melhor de tudo é sair para conhecer um lugar, e acabar conhecendo mais a si mesmo, conhecendo sentimentos, pessoas, sensações...Por isso que viver é tão bom!Você sai com um objetivo e traz na bagagagem um momente de lembranças, de vivências que nos moldam, que nos fazem apaixonar, encantar basta estar um tanto quanto atento, mas deixando a vida te mostrar sua beleza mesmo sendo tão triste.:)

    Queria ter vivido esses pequenos momentos com você, amiga!*_*
    Quando eu for ai, vamos juntas??*_*
    Beijãooo!!

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  9. Eu fiquei o post todo pensando em coisas para dizer sobre São Paulo, mas me perdi completamente com essa sua frase final. Porque você disse tudo o que eu poderia tentar dizer. São Paulo é exatamente isso! Cheio de milímetros apaixonantes!

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  10. Vou te contrariar e dizer que, de fato, não existe amor em ésse pê. Apesar de nunca ter ido a São Paulo e morrer de vontade, digo e repito, não existe amor em ésse pê.
    Acho que o amor tá em você (e que São Paulo é um buquê).
    Quero muito ir pra SP, como faz tia? :(

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  11. Também sou dessas observadoras distraídas. E olha, fui na Liberdade só uma vez na vida, ADOREI, é um lugar único, mas ela não chegou a me passar esse encanto todo. Eu goto muito de São Paulo, mas não se se conseguiria morar lá.
    Agora, construções antigas são comigo mesmo, viajo total olhando pra elas.

    Beijo, Fran.

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  12. Nossa! Lendo seu texto percebi que faz um tempão que não vou a Liberdade e o quanto é gostoso ir pra lá! Há um tempo atrás ia sempre de Domingo comer Yakissoba na feirinha. Yakissoba no prato de plastico e sentada na calçada! Mas isso é o que chamamos de Liberdade, ou não??? Rs! fora as lojinhas de cosméticos que são tudo de bom!
    Beijos

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  13. Também adoro São Paulo! :)
    Não com esse amor todo, mas acho liiindo o vale do anhangabaú, adoro demais aqueles prédios antigos também! E acho as ruas perto da república muuuuito bonitas!
    Aqueles teatros meio alternativos também são o máximo. A forma como pessoas de tudo quanto é jeito passam por nós e as que estão em volta nem olham estranho. Porque ser livre pra se expressar na forma de se vestir, de ser é comum por lá.. :)

    E a Liberdade é linda! Mesmo mesmo mesmo!
    Vontade de ir lá o tempo todo! ^^

    Adorei demais esse trechinho do Caio F.! Muito bonitinho! Fiquei imaginando os dois no metrô! :)

    Beijinhoos!

    P.S.: Também não uso muito maquiagem. Só para festas dessas de formatura, casamento... e pra aniversários que sejam mais arrumadinhos, sabe? No dia a dia, uso nada! :D
    Só quando dá vontade, uso um rímel, blush ou iluminador rosado no topo da bochecha! :P
    Mas, sou apaixonada por maquiagem. Mesmo sem usar tanto! Fico pegando um monte de gente pra usar de cobaia! As amigas já até me pedem pra maquiá-las quando têm alguma festa pra ir! :)
    E eu adoooooro demais! o/

    ;*

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  14. Nunca fui pra São Paulo. Pois é. É o único estado do Sudeste que nunca fui (ok, são só quatro). Sempre quis conhecer, mas nunca tive oportunidade. Gostei da sua narrativa, contou os encantos de São Paulo, como a Liberdade e o violinista. Muito sensível seu jeito de falar de lá. Quem sabe um dia não vou conhecer? Ficou ótimo o texto. Um beijo!

    (graças a Deus vejo um trecho do C.F. Abreu que faça sentido. Em todo lugar que vou, tem trecho dele descontextualizado).

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  15. Lindo texto, Fran! Não gosto tanto assim de São Paulo, mas sei como é ter um lugar que nos faz tão bem, me sinto assim na cidade na qual estou neste momento. Fico feliz por você =) beijos

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  16. Adorei seu texto Fran, não por ser apaixonada por São Paulo ou pelo bairro da Liberdade, mas pela paixão com que você fala e descreve. Faz com que a gente queira encontrar isso: mesmo sendo um lugar de todo mundo, a gente sente que é só nosso.

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  17. Estudei bem pertinho da Liberdade e às vezes ia lá comer comida japonesa em um restaurante :) As lojinhas de lá vendem coisas muito fofas!
    E já fui nessa casa de Portugal fazer um trabalho, ela tem cheiro de mofo.
    Amo morar em SP, acho que nunca me adaptaria a outra cidade no Brasil, pelo menos.

    beijos

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  18. Ai que lindo... SP é amor mesmo. Cada centímetro daquele concreto, daquela garoa e cada grama de poluição que emana daqueles ares. Minhas melhores viagens são as que são feitas para lá, no entanto, ainda não tive oportunidade de conhecer todos os pontos turísticos que gostaria, infelizmente. A Liberdade eu conheci. Conheci e amei e fiquei brava por não ter levado a minha câmera e prometi voltar para registrar o máximo que conseguisse.
    São Paulo é o homem que todas as mulheres sensatas gostariam de ter, mas não têm, porque é uma cidade e não um homem. Triste. Belo texto, beijos Fran!

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  19. Foi a declaração de amor mais bonita que eu já vi. Se SP fosse um homem também gostaria de me casar com ele.

    Quando era pequena e ia par'quela região do centro com muitos prédios gigantescos, lembro que tinha medo de eles caírem em cima de mim, porque pareciam tortos, inclinados. Não sei se você já teve essa impressão.

    Lembro que a primeira (a segunda, a terceira e até hoje) em que visitei o Teatro Municipal e o Museu do Ipiranga me senti da realeza. É inexplicável, você se sente uma princesa mesmo sem súditos, sem vestidos e coroas. É uma coisa de alma mesmo.

    E mesmo que morar nessa cidade me diminuía um ano e meio de vida eu não ligo, porque sinto que em outro lugar não me encontraria tão bem.

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  20. Você viu um Realejo ao vivo.. *----------------------*
    Um dia ainda vejo um.
    Achei esse texto tão... você. Porque você tem muita coisa pra conquistar. E tem toda a força necessária pra isso, só falta colocar nessa cabecinha que você é sim muito importante e indispensável. Você vai conquistar o mundo, Fran. Isso é grande.
    Beijo! <3

    PS: quando eu for a SP de novo, quero que você vá lá me encontrar pra me mostrar tudo do seu jeito.

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  21. Nunca estive em São Paulo e nem me imagino lá. Falei isso para uma amiga esses dias. Parece um mundo diferente do meu. Mas Liberdade parece sim ser um lugar muito bacana de se conhecer. Quase me transportei pra lá por meio do seu post haha

    (www.caixinhadeopinioes.zip.net)

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  22. Amei o texto Fran, muito bom! SP é magica mesmo, vc traduziu em palavras o que eu sinto qd vou para lá!

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.