crônicas e contos

mi religión

15:07

(daqui)
Não foi trocada ao nascer, não teve crises de identidade por ter uma irmã gêmea e nunca foi a mais popular. Sempre soube dos seus gostos, das preferências e muito provavelmente sempre teve certeza do que queria, ainda que pudesse mudar de opinião. Cada detalhe sempre foi minuciosamente planejado, estudado, pesquisado. Coisas banais nunca a incomodaram como agora. Nunca ficou pensando numa pergunta tão simples por tanto tempo. Por semanas. Não havia vivido tantas síndromes ao mesmo tempo. Poulain, Alice, Pequeno Príncipe, Menino Varrido. Não achava que a história de personagens de livros podia fazer tanto sentido na vida real. Não pensava por tanto tempo como seria se fosse outro: o hábito, o sentimento, o pensamento. Outra ideia, outros planos. Como seria se fosse como outras pessoas. Se fosse ruiva. Se fosse mais desapegada. Se vivesse em outro lugar. Se simplesmente fosse pra outro lugar. “Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra.”, como seria se isso se tornasse real? Como seria se fizesse outras coleções. Se tivesse se interessado por outro idioma. Se não tivesse gastado a poupança. Onde poderia estar e quem seria. Se lesse outros autores e os adotasse como seus preferidos. Se tivesse praticado basquete. Se fosse mais doce. Se entendesse mais sobre o cinema francês. Se pertencesse ao padrão. Se fizesse uma tatuagem ou pintasse o cabelo de uma cor improvável. Se não tivesse dito certas coisas, se não tivesse recebido determinadas mensagens. Se não tivesse ouvido certas palavras. Se tivesse dito mais nãos. Ou mais sims. Se tivesse insistido ou ignorado. Se tivesse estudado harpa. Ou aprendido a dirigir. Se bebesse socialmente. Se meditasse. Se não lesse tanto e se conhecesse mais sobre música. Se dançasse. Se soubesse contar piada. Se soubesse a história da arte, se fosse melhor em exatas. Se tivesse menos medo.

Algumas pessoas se encontram em alguma viagem, no curso da faculdade, num segundo idioma ou no trabalho. Algumas pessoas se encontram quando namoram e outras quando se separam. Algumas se encontram vendo TV, outras em um grande trabalho voluntário. Algumas pessoas se encontram nos sonhos. Outras num estalo diário da mente. Algumas pessoas se encontram exatamente naquilo que nunca se viram fazendo, outras se encontram no óbvio. E algumas só querem organizar as palavras antes de dormir e ter sonhos estranhos...



Eu não sei, na verdade quem eu sou. Já tentei calcular o meu valor ♫ - O Teatro Mágico 

14 comentários

  1. Acho que eu também me encontro num momento em que muitos "Se" andam aparecendo. Queria que fosse fácil "me encontrar". Queria seguir uma linha reta sem dúvidas, sem decepções que tentam nos desviar do caminho. Então sou solidária neste momento hehe

    (www.caixinhadeopinioes.zip.net)

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  2. Lindo texto mesmo, Fran... Adorei!

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  3. Costumo não pensar TANTO nos "Se.."s da vida. Costumo lidar com o que tenho no momento e lutar pro que quero.. :)
    Claro que nem sempre é possível, mas é uma tentativa constante! ^^

    E ooow... tenta fazer os cookies siiim! Vão dar certo dessa vez! A mistureba não tem como errar! Coloca o cookie e fica do ladinho do forno! Aproveita que assa bem rápido e fica lá do lado pra não passar do ponto! Hhuiahoaiu

    :D

    Beijinhos!
    ;*

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  4. kkk- Que coincidência a minha amiga de quarto ouviu tanto essa música ontem a noite, muito boaa
    Pois é, como seria se a gente tivesse ido por outros rumos, tivesse dito outras coisas, ouvido outras coisas, o que isso mudaria a nossa vida? Será que seriamos diferentes? Perguntas...
    Bjos ;*

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  5. "E se..."
    Isso habita em mim. Mas, é preferível não pensar muito nisso.
    Prefiro olhar para o que sou e aproveitar o que tenho e o que vivo. Quando isso é possível, para mim.
    Às vezes, não consigo deixar essas perguntas de lado. Mas, eu tento. Para não perder um segundo de vida, para não deixar de viver de verdade, por dúvidas que não farão nenhuma diferença na minha vida.
    Às vezes, tentar mais, nos ajuda a responder tantas perguntas.

    Gostei muito do texto. *-*
    Beijos:*

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  6. Que belo ! E se você tivesse feito esse monte de coisas excêntricas e bonitas e quisesse só ser como os outros,ditos comuns,mas que carregam dentro de si um certo mistério de belezas escondidas,de peculiaridades para serem descobertas.Bom mesmo é revelar nossas particularidades a pessoas que como nós são únicas,bom mesmo é se mostrar distinto aos olhos de poucos,não consigo pensar numa melhor forma de me encontrar.

    beijo

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  7. Olá,
    Tudo bem?
    Acabei de criar um blog e navegando por vários blog encontrei o seu. Gostei muito dos textos, por isso sigo-te. Se puder e quiser visite-me!

    Beijos

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  8. São muitos 'ses', né, Fran? Acho que esse é o motivo de eu tentar não pensar muito nisso. Se eu tiver que me descobrir, tem que ser no que sou, não no que eu poderia ter sido. Se as coisas fossem de outro jeito, eu não seria eu (igual à música do cabelo, né?). Lindo seu texto.

    Beijos :)

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  9. Belo texto. Fez-me refletir bastante! Espero que minha lista de músicas e ainfs tenha te ajudado um pouquinhozinho que seja... Seja feliz! Abraços :)

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  10. Que delícia de texto, Fran. Eu gosto da forma como você organiza suas palavras (espero que tenha sonhos lindos!).
    Aaahh, Teatro Mágico. ♥

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  11. Uma hora a gente se encontra, se acha, e dai tudo fica mais bonito. Só não se perca nos "ses" por ai! :)

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  12. O título me fez lembrar da música "Eres mi religion" (Maná). Por sinal, uma música bem bonita :}

    Ah, Fran, os "e se" nos deixam perdidos. É como eu disse esses dias num post do flickr: às vezes pensar demais na vida, no que pode ou não ser/acontecer, nos paralisa.

    Texto bonito.

    Beijinho, moça.

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  13. Pôxa!! Muito bom isso hein? Agora me dá uns minutos porque preciso pensar em tudo que vc colocou...rsrs...

    []s

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.