Fapija

Quanto custa sua diversão?

16:21

(É um milagre eu fazer post nesse blog em dois dias seguidos. Mas quem quiser apreciar o de ontem, a vontade rs)


Ao final do primeiro semestre na faculdade, a última coisa que aprendi em filosofia foi sobre o caráter blasé que é, explicando bem superficialmente, uma espécie de indiferença (ou desinteresse) sobre a enorme quantidade de informações que nos surgem todos os dias. Lembro-me perfeitamente do exemplo que ela deu: um acidente de ônibus na região do ABC (não me lembro em qual cidade). Era algo lamentável, mas que não a atingia diretamente, porque ninguém ali tinha ligação com ela.

Parece terrível, não? Mas é verdade. E além disso, é o que acontece conosco.

Aqui onde moro (Jacareí/SP, pra quem não sabe) acontece anualmente uma feira chamada FAPIJA. Ela acontece em julho, durante dez dias. A cada dia, um show - sertanejo em sua maioria. A Fapija é organizada pelo Sindicato Rural de Jacareí e até então usa o espaço da ETEC Cônego José Bento (cursei meu ensino médio lá).

Ano passado, após um show, um rapaz foi assassinado no Caipiródromo (não me culpem pelos termos, gente. Não criei nenhum), uma espécie de balada pós show. Como é mil vezes mais fácil culpar a vítima, disseram que o cara havia começado uma briga... Mas ele estava apenas tentando acabar com uma. A segurança do evento disse que iria averiguar o caso e pedir as imagens das câmeras de segurança do local para apuração do fato. Esse ano os familiares da vítima fizeram uma espécie de protesto, com um cartaz em frente ao local, já que, adivinhem? Nada foi feito até hoje. Oh, oh, oh! *Exclamações de surpresa por todos os lados*

Esse ano uma criança já caiu de um brinquedo (UM PS SOBRE ISSO: Os brinquedos do parque da fapija tem a mesma cara de quando eu tinha 5 anos, todos enferrujados, escorados em qualquer coisa discreta que faça parecer que tudo ali está ok.) e ninguém foi verificar nada, há boatos de que um cara foi assassinado no domingo - e me disseram que já tem briga armada por aí ("Já?" perguntou-me meu pai). ÓBVIO que eu acho horrível, óbvio que eu fico roxa de indignação com essas coisas. Só não piora porque eu não os conhecia. E não é maldade, é real.

Segunda-feira vários amigos pelos quais eu morro de amores estavam no show do Jorge e Mateus. Uns pelo show, uns apenas pra passear. Qual o problema nisso? Pagam impostos, pagaram o ingresso com o dinheiro deles e pagam suas próprias contas (ao menos tecnicamente). Todo o direito de se divertirem nas férias, certo? Certo.

Ontem, enquanto olhava fixamente numa home no facebook dei de cara com uma postagem de um cara dizendo que estava ali "procurando testemunhas para poder montar a história dele". Pouco curiosa, fui fuçar. A primeira coisa que pensei foi que ele tinha levado um tiro, sei lá né. Coisas que eu espero da FAPIJA. Daí achei a reportagem no VNews sobre o que tinha acontecido. Ele foi assaltado logo na entrada e na saída, arrastado pra um canto do lugar (que já é deserto o bastante em época de aula, imaginem nesse tipo de evento) e espancado. Assim, simplesmente isso. Mais detalhes, vejam o vídeo.

Só que eis que esse cara foi meu professor de biologia no cursinho e há duas semanas eu estava num churrasco na casa dele. Logo, não importa a versão que "a alta classe" diga, eu nunca vou acreditar. Depois, como disse Renan ontem na nossa conversa terrorista (brimks): não tem testemunhas dizendo que ele fez algo. Mas né? Se fosse culpa dele, já estaria pipocando de gente pra contar, porque o ser humano é assim. Mas não. Como é pra defender, ninguém sabe, ninguém viu.

Isso tudo porque os "donos da cidade" prometeram mostrar melhorias na Fapija esse ano. Lendas Urbanas, aí vamos nós.

E vamos combinar, né gente? Eu sou chata. Chata pra caramba. E se o prefeito já me respondeu pelo facebook uma vez, porque não cutucá-lo? Daí postei:
É só eu que acho isso ou vários "incidentes" que acontecem por aí, tipo os que aconteceram na Fapija, nunca são comentados pelo povo de "alta classe e dinheiro na mão"? Pessoal do Sindicato, sr prefeito Hamilton Mota, geral da prefeitura, seguranças... Sempre vejo comentários vazios e superficiais. mas né? Deve ser coisa da minha cabeça...
No meio disso tudo fiquei conversando com o Renan (já que, além de tudo, Edu é nosso amigo em comum) e concluímos algo que meu pai sempre diz quando essa gente famosa fala/faz alguma cagada: Vocês querem saber quando alguém vai resolver alguma coisa? Quando começar a mexer no bolso deles. Quando esses "incidentes" atingirem alguém ou alguma pessoa próxima ao povo de "alta classe e dinheiro na mão", como diz a música (que eu adoro e sei cantar, aliás. êê). Deve parecer a coisa mais cruel do mundo dizer isso, mas gente... É verdade. Ou alguém pensa que eles vão mudar algo enquanto isso não atingi-los? É um jogo de interesses (Renan, tô roubando suas palavras) sem fim. E todo ano a única resposta que se tem é "vamos apurar as imagens das câmeras de segurança". Isso porque não tem câmeras nem seguranças espalhados por todo o local.

Bom. Amanhã acontecerá, em frente ao local (FAPIJA: Avenida Nove de Julho, centro de Jacareí/SP) um Manifesto Contra a Violência. Infelizmente, eu não sei se vou (mas tenho amigos que irão e sei que me contarão tudo depois (rs).), embora quisesse muito mesmo. Mas acho válido que quem puder ir, vá. Que divulguem. Que contem aos amigos. (Sugerir "que joguem bombas caseiras perto da prefeitura" vai contra os valores do blog).

Sei que é mínimo. E embora eu realmente acredite nas manifestações e marchas (e ainda me culpo por não ter ido à Marcha das Vadias e a Marcha da Liberdade), assumo que isso pode ou não dar resultado. Que pode fazer diferença sim, mas é quase utópico. Vai marcar? Vai. Especialmente porque Jacareí não é muito dada a manifestações assim. Vai chamar atenção? Sim, vai. Vai atrair a mídia? Provavelmente. Vai mostrar pra "eles" que não estamos cegos diante do que acontece? Sim. Mas o que eles farão, sinceramente, não sei. Espero que algo. Prefiro acreditar que algo.

Só que é assim, né... Dar a cara a tapa. Tentar. Insistir. Afinal de contas, essa gente depende dos cidadãos.
E por tudo isso fiquei encantada por essa imagem encontrada no tumblr "Olhos e Muros". E digam se não faz sentido? Eles só querem o lucro, sem se preocupar com o resto. Tentem não presenteá-los com o que eles querem, não os deixem acreditar que tá tudo bem, que logo logo isso será esquecido. Sua diversão jamais deveria custar sua segurança ou, no pior dos casos, sua vida.

E eu não digo isso só por Jacareí.

5 comentários

  1. Realmente é assim, ninguém toma providência até que mexa não só no bolso, mas também na vida deles. Porque se fosse um parente envolvido, já estaria tudo lindamente resolvido.

    Nos revoltamos quando acontece algo, tipo um assassinato, mas só nos importamos mesmo quando está diretamente ligado a nós, fazer o que.

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  2. Se você for ver de verdade, eles não se importam mas nós também, quando estamos acomodados, não nos importamos que eles não se importem. Mais do que nunca, aquela máxima de "Olhe primeiro para si mesmo", é verdadeira. E viver em sociedade pode nos fazer descobrir muita coisa que não sabíamos.
    Um beijo ! @biacentrismo - http://biacentrismo.blogspot.com

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  3. Sigo seu blog há tempos...segue o meu? http://menteinversa.blogspot.com/
    Beijos

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  4. Infelizmente hoje as coisas são assim mesmo.
    Ta faltando pessoas como você e outras tantas, que botam a boca no trombone e falam o que tem que ser dito.
    Mas quem sabe, num futuro -espero que não distante- as coisas comecem a mudar.

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  5. Sou a favor das marchas sim, mas por algo que importe, que tenha um peso real, sabe?

    E se você não lutar pelo que você quer, com marchas, protestos e o escambal à quatro como vai incomoda-los? Vão continuar com seus "pandeiros" na cadeira fazendo o que sabem: nada.

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Puxe a cadeira e sirva-se de um chá.