.Querido Diário

Lá vem a gorda de novo

23:07
Tenho me sentido com um pouco mais de coragem para escrever sobre questões importantes e reais pra mim e, inspirada em um grupo no facebook do qual faço parte, senti a necessidade de falar sobre ser gorda. Depois de um bate-papo e um guest post, ainda existe a necessidade de falar sobre a minha experiência e, afinal de contas, existência.

Eu quase não conheço uma menina que não tenha sofrido por padrões de beleza empurrados desde praticamente o nosso nascimento. Eu via amigas chorando por terem levado um pé na bunda porque não eram “como os meninos queriam”, eu via meninas chorando porque não tinham “um bom cabelo ou uma boa pele”, por não encontrarem boas roupas, por sofrerem com piadas e comentários maldosos. Não conheço nenhuma menina que não tenha sofrido, com razão, por padrões estéticos.

Toda essa dor é válida, é discutida e precisa ser combatida. No entanto, enquanto minhas amigas só precisavam ajustar suas roupas, eu sequer encontrava algo que realmente gostasse. Tanto é que enquanto elas definiam seus estilos aos 15-16 anos, eu só pude começar a investigar o meu aos 23.

Enquanto elas tinham relacionamentos, paqueras ou ficantes, eu era estepe ou estava com quem jamais gostaria de ser visto em público comigo. Mesmo os pés na bunda vinham como uma banalidade: eles simplesmente estavam com outras.

Mas, é claro que para muita gente, isso não significa nada.

Também não significa nada não passar entre as fileiras de carteiras na escola. Não significa nada ser sempre recebida com olhar de nojo, não poder usar a roupa que ficou apaixonada e não poder comer em paz, nem uma bala sequer. Se é um doce “lá vem a gorda de novo”, se é uma salada “olha lá a gorda, pobre coitada”. 



Pra gente, enquanto isso, é morrer de vergonha de responder o “serviu?” da moça do provador. É não acreditar em elogios. É se podar a todo o tempo. É ter medo de sentar em cadeiras mais frágeis. É competir consigo mesma sobre quanto tempo você aguenta ficar sem comer. É competir consigo mesma sobre quanta atividade física você consegue fazer. Sobre quantos dias você fica sem comer. É se olhar no espelho e não se ver.

Pra gente, ser gorda é ser desprezada pelos amigos do seu namorado. É ser isolada do grupinho porque você tem a audácia de impor sua presença. É ser medida pelas outras meninas porque “ele merece mais”. É ser quem desperta nojinho. Pra gente, ser gorda é ser julgada o tempo todo no trabalho - isso quando você não é dispensada dele apenas pela aparência. É ouvir o tempo todo que “você seria bonita, se”. Ou que “tem um rosto bonito, mas”. Que precisa ser melhor. 

Estamos todas fora dos padrões e sempre estaremos. Mas não existe sociedade para nós. Não existe espaço, não existe conforto e não existe beleza. Não existe empatia, não existe saúde, não existe representatividade. E não existe quem não goste de você por quem você é - aquela gordurinha chegou na frente e tapou a visão pra todo o resto, afinal de contas.

Como a gente ousa se defender dessa forma, ninguém sabe. Da onde a gente tira resistência, ninguém sabe. Da onde a gente aprende a se amar, ninguém sabe. Só se sabe que lá vem a gorda de novo, falando de autoestima.

.Querido Diário

Quanta certeza a gente tem?

19:48
[Esse post contém spoiler de Master of None]

Terminei de assistir Master of None essa semana e, embora o texto seja baseado nele, poderia ser mais um texto sobre a vida. Especialmente a minha.

Eu sou completamente atraída por tudo que fale sobre relacionamentos modernos, comportamentos e questões da vida, num geral. Talvez seja por isso que a série me atraiu e, apesar de ter um ritmo mais lento, digamos, foi uma delícia acompanhar.

A temporada teve vários episódios marcantes para mim. Os fatos importantes começam quando Rachel e Dev conversam sobre oportunidades e a dura certeza de que a vida passa e as oportunidades diminuem. Eles conversam sobre onde morariam se pudessem ir para qualquer lugar do mundo e ela conta sobre sua irmã, que mesmo com tantos sonhos, um dia casou e de repente viu que não havia feito nada do que gostaria.



Há momentos que questionam a convivência do casal, incluindo rotina e manias. Há momentos onde o pai de Dev fala sobre a necessidade de ele ser menos inseguro e aprender a tomar decisões. Dá momentos onde Dev questiona Rachel sobre ela cogitar ir morar por alguns meses em outra cidade por um trabalho pelo qual ela nem sequer se importa. Há um momento especial onde Dev questiona quanta certeza Rachel tem sobre querer passar o resto da vida dela com ele - e ele, com ela.

Um belo dia Dev pede para conversar com Rachel e ela diz que ele tinha razão. Justo quando ele havia decidido que ela era o amor da vida dele, ela diz que vai passar uma temporada em Tóquio, porque não quer acordar um dia e perceber que deixou passar todas as oportunidades, todos os momentos que poderia aproveitar. Dev a segue, ou melhor, segue a lógica - e vai para a Itália (mesmo que eu tenha pensado até o minuto final que na verdade ele iria atrás dela).

Master of None é, para mim, uma série tão real que dói, que me deixou em posição fetal pensando sobre tudo que haviam jogado na minha cara.

Sabemos que é praticamente impossível ter 100% de certeza sobre o que queremos da nossa vida. Sabemos que, às vezes, para escolher um caminho precisamos abrir mão de todos os outros. Sabemos que nem sempre conseguimos conciliar algumas coisas. Eu costumo pensar que não existe “cedo demais”, mas que existe tarde demais. Faz sentido?

Quantas vezes tivemos a sensação de que esse ano trouxe menos oportunidades que o ano passado? Quantas vezes estávamos inseguros demais para aceitar algo ou nos seguramos firmemente no “eu não sei”? Muitíssimas. Inúmeras vezes acabamos dando mais atenção a algo que nem nos importamos de verdade, seguimos em relacionamentos desconfortáveis porque “já investimos tempo demais” ou porque “não dá pra recomeçar agora”.

Tão difícil quanto arriscar um caminho é pensar em recomeços. Em tomar uma nova direção. Em se colocar em primeiro lugar. Em acreditar em sonhos. Tão difícil quanto optar é tentar equilibrar a própria vida. Tão difícil quanto escolher é arcar com a certeza de que nunca saberemos se estamos no caminho certo. Estamos sempre nos lamentando pelo que tivemos que deixar para trás e esquecemos do novo caminho que podemos criar.

Anitelli diria, lá nos primórdios da sua carreira: “deixo explícito que se for pra frente, coisas ficam para trás. A gente só nunca sabe que coisas são essas”.

Alguém sabe?

Espaço das Mina

Você não me prende mais

09:13
Eu sentia o vento e imaginava que o amor era assim, como diz no filme, “você não pode ver, mas pode sentir”. A brisa continuava bagunçando os cabelos, mas o coração não parecia sentir o mesmo prazer com os efeitos climáticos que o desalinhavam. 

Era imensidão dentro de mim, tão abundante que o mar se tornou cúmplice e assim se construiu nosso segredo. 
Haviam negações imperceptíveis por uma paixão cega e carente de amor próprio. A vontade do uno me roubava a vontade de Ser. Parecia lindo, até que a venda lhe cai dos olhos e é possível enxergar uma podridão fétida, distorcida e decomposta. 

A proteção não era minha, não era por mim. A proteção era por seu ego másculo, imaculado, viril. O cuidado não era pela parceria e sim pela sua estrutura ideal do que seria uma relação adequada aos seus padrões. Não havia colo ali, não havia acalento, nossa música não fazia mais sentido tocar.

Eu acordei com aquele líquido escorrendo em minha face, havia uma nuvem em meus pensamentos como se o sonho ou pesadelo ainda estivesse acontecendo. Tudo ficou branco e me vi em uma realidade que não fazia parte das juras, dos votos e das confidências. O real era assim?

Eis que uma vulnerabilidade descontrolada e inconcebida me toma em seus braços e me carrega para a ruptura daquela realidade perturbadora e alucinante. 

Já não sei mais quem sou. Minhas verdades foram dizimadas por egos envaidecidos, minhas ideologias colapsaram e desnortearam minhas orientações tão carregadas de certezas. Me vi desfeita.

Assim era amar? Assim era cuidar? Assim era querer? Assim era proteger? Assim era compartilhar? Qual minuto é esse que o acorde muda e a melodia traz raiva, amargura e agressividade? 

Não há posse no amar, não pense me possuir, não pense me aprisionar. Minha liberdade grita, berra, derruba portas e obstáculos, corre buscando o mar e o céu. Se eu escolho repousar nos seus braços deixe eu saber que o prazer desse aconchego está no prazer da minha autonomia em lhe querer e lhe fazer perto, do contrário a leveza se perde e eu me desmancho em cores sombrias que não me cabem e sufocam. 

Eu quero Amor na sua mais singela e suave expressão. Sobre a frase “fique longe de quem te faz sentir como se fosse difícil de ser amada”, percebi que amor é para quem ama e eu me amo muito para aceitar menos do que a felicidade ao meu lado. 

Mudei sim algumas certezas de lugar, não foi opcional, mas foi fundamental para a reestruturação do que sou. Me vi minha, enfim. Não me dou, não me ofereço, mas compartilho o que e com quem eu desejo. Hoje sou minha e continuo em constante construção e desconstrução, mas com amor, esse sempre.

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Da autora: Elisa acredita em signos e adora sua mistura de libra com ascendente em escorpião. Jornalista de alma e comunicadora por opção, encontra na escrita seu momento de desabafo, reflexão, desconstrução e empoderamento.