Amizade

Pessoas abusivas: quando um amigo vira um gatilho

15:43
(fonte)


Desenvolver nossa autoestima é tarefa difícil em uma sociedade que faz o possível para miná-la. Em todos os lados, especialmente quando se é mulher, ter confiança em si mesma é, além de ameaça para todos ao redor, uma forma de revolução e sua principal arma de guerra.

Nas mais diversas fases e nos melhores acontecimentos da sua vida, a sensação de que haverá alguém que fará com que você pense que não merece se sentir como se sente é intensa. Se for alguma dificuldade, alguém vai menosprezar seu sofrimento e dizer que você não tem o direito de sentir assim. Se for alguma comemoração, alguém vai menosprezar sua vitória e te fazer acreditar que aquilo não é grande coisa.

Essas pessoas existem. Elas não são apenas o colega do trabalho, da faculdade ou o tio mala da sua família. De vez em quando elas são parte constante da sua vida, são suas melhores amigas, são seu/sua namorado(a), são os parentes que você mais gosta. 

Quando ainda estamos num processo de amadurecimento, de descoberta e de construção da autoestima, quando ainda estamos aprendendo a nos amar e nos empoderar, acabamos ficando mais volúveis a esse tipo de comportamento alheio. Estamos seguindo nosso caminho e, de repente, sentimos como se alguém nos jogasse quilos e quilos de culpa nos ombros - e dificultasse mais nosso trajeto.

Nas relações amorosas, muitas vezes, essas atitudes desencadeiam um relacionamento abusivo e tem se tornado mais fácil discutir sobre isso. Identificar atitudes abusivas e tóxicas em amigos, no entanto, é quase inadmissível. Nossas amigas só querem o nosso bem, certo?

Errado. Não acredito em questionar os motivos de alguém fazer seja lá o que for, mas acredito em colocar como nos sentimos acima de tudo isso. 

Ter por perto “amigos” que estão sempre diminuindo o que você sente, que estão sempre diminuindo sua aparência, que sempre se metem no seu relacionamento ou que dão palpites sem você pedir é permitir que alguém sabote sua autoestima e, talvez, se torne um gatilho. Se um amigo faz questão de lembrá-la o quanto ele é melhor que você ou declarar que você “nunca consegue alcançar nada”, se um amigo usa a máxima “sou sincero e foda-se”, sem lembrar que sinceridade é diferente de grosseria, se um amigo sempre dá um jeito para inserir uma crítica no seu dia-a-dia, especialmente as que surgem do nada, cuidado: você precisa terminar essa amizade.

Já vivi situações onde pessoas que eu considerava grandes amigas se tornaram gatilhos ao ponto de eu precisar lidar com isso até hoje, anos depois. Basta um movimento para que uma crise de ansiedade se instaure e tudo que eu tinha construído para mim desapareça no ar. E tudo isso porque um dia permiti que os comentários sobre eu não ser boa o bastante para alguém ou sobre as questões trabalhistas que me emputeciam eram comuns e “pare de sofrer por isso, que bobagem, você reclama de boca cheia” criassem raízes dentro de mim.

É claro que criar consciência sobre isso não é fácil. A gente tem sempre a ideia de que amizade tem que ser pra sempre, de que é errado se afastar de alguém, de que a gente precisa aceitar, de que a tempestade é nossa. É inaceitável se afastar de alguém “sem razão”, é inaceitável querer um tempo de “uma amizade tão boa, que pessoa tão boazinha”.

Acontece que permitir que estejam na sua vida pessoas que não te deixam feliz e não te apoiam genuinamente (e não falamos aqui sobre passar a mão na cabeça quando cometemos erros) é trilhar um caminho de peso, de culpa, de angústias e, muitas vezes, de solidão. Se forçar a aceitar veneno ou a moldar-se a alguém é se distanciar ainda mais da pessoa incrível que podemos ser. E é, eventualmente, ter gatilhos por um bom tempo da vida, sem saber como lidaremos com eles.

Ninguém é obrigado a abrir as portas (de casa, da vida) para nada que te diminua. Nunca aceite ter qualquer tipo de relação com alguém que te faça sentir menos do que ótima. Termine amizades, termine ciclos. Vamos aprender juntas que merecemos viver mais leve e viver com quem queremos por bem. Podemos e precisamos ter sororidade umas pelas outras, mas precisamos ter amor por nós mesmas antes.


.Querido Diário

Lá vem a gorda de novo

23:07
Tenho me sentido com um pouco mais de coragem para escrever sobre questões importantes e reais pra mim e, inspirada em um grupo no facebook do qual faço parte, senti a necessidade de falar sobre ser gorda. Depois de um bate-papo e um guest post, ainda existe a necessidade de falar sobre a minha experiência e, afinal de contas, existência.

Eu quase não conheço uma menina que não tenha sofrido por padrões de beleza empurrados desde praticamente o nosso nascimento. Eu via amigas chorando por terem levado um pé na bunda porque não eram “como os meninos queriam”, eu via meninas chorando porque não tinham “um bom cabelo ou uma boa pele”, por não encontrarem boas roupas, por sofrerem com piadas e comentários maldosos. Não conheço nenhuma menina que não tenha sofrido, com razão, por padrões estéticos.

Toda essa dor é válida, é discutida e precisa ser combatida. No entanto, enquanto minhas amigas só precisavam ajustar suas roupas, eu sequer encontrava algo que realmente gostasse. Tanto é que enquanto elas definiam seus estilos aos 15-16 anos, eu só pude começar a investigar o meu aos 23.

Enquanto elas tinham relacionamentos, paqueras ou ficantes, eu era estepe ou estava com quem jamais gostaria de ser visto em público comigo. Mesmo os pés na bunda vinham como uma banalidade: eles simplesmente estavam com outras.

Mas, é claro que para muita gente, isso não significa nada.

Também não significa nada não passar entre as fileiras de carteiras na escola. Não significa nada ser sempre recebida com olhar de nojo, não poder usar a roupa que ficou apaixonada e não poder comer em paz, nem uma bala sequer. Se é um doce “lá vem a gorda de novo”, se é uma salada “olha lá a gorda, pobre coitada”. 



Pra gente, enquanto isso, é morrer de vergonha de responder o “serviu?” da moça do provador. É não acreditar em elogios. É se podar a todo o tempo. É ter medo de sentar em cadeiras mais frágeis. É competir consigo mesma sobre quanto tempo você aguenta ficar sem comer. É competir consigo mesma sobre quanta atividade física você consegue fazer. Sobre quantos dias você fica sem comer. É se olhar no espelho e não se ver.

Pra gente, ser gorda é ser desprezada pelos amigos do seu namorado. É ser isolada do grupinho porque você tem a audácia de impor sua presença. É ser medida pelas outras meninas porque “ele merece mais”. É ser quem desperta nojinho. Pra gente, ser gorda é ser julgada o tempo todo no trabalho - isso quando você não é dispensada dele apenas pela aparência. É ouvir o tempo todo que “você seria bonita, se”. Ou que “tem um rosto bonito, mas”. Que precisa ser melhor. 

Estamos todas fora dos padrões e sempre estaremos. Mas não existe sociedade para nós. Não existe espaço, não existe conforto e não existe beleza. Não existe empatia, não existe saúde, não existe representatividade. E não existe quem não goste de você por quem você é - aquela gordurinha chegou na frente e tapou a visão pra todo o resto, afinal de contas.

Como a gente ousa se defender dessa forma, ninguém sabe. Da onde a gente tira resistência, ninguém sabe. Da onde a gente aprende a se amar, ninguém sabe. Só se sabe que lá vem a gorda de novo, falando de autoestima.

.Querido Diário

Quanta certeza a gente tem?

19:48
[Esse post contém spoiler de Master of None]

Terminei de assistir Master of None essa semana e, embora o texto seja baseado nele, poderia ser mais um texto sobre a vida. Especialmente a minha.

Eu sou completamente atraída por tudo que fale sobre relacionamentos modernos, comportamentos e questões da vida, num geral. Talvez seja por isso que a série me atraiu e, apesar de ter um ritmo mais lento, digamos, foi uma delícia acompanhar.

A temporada teve vários episódios marcantes para mim. Os fatos importantes começam quando Rachel e Dev conversam sobre oportunidades e a dura certeza de que a vida passa e as oportunidades diminuem. Eles conversam sobre onde morariam se pudessem ir para qualquer lugar do mundo e ela conta sobre sua irmã, que mesmo com tantos sonhos, um dia casou e de repente viu que não havia feito nada do que gostaria.



Há momentos que questionam a convivência do casal, incluindo rotina e manias. Há momentos onde o pai de Dev fala sobre a necessidade de ele ser menos inseguro e aprender a tomar decisões. Dá momentos onde Dev questiona Rachel sobre ela cogitar ir morar por alguns meses em outra cidade por um trabalho pelo qual ela nem sequer se importa. Há um momento especial onde Dev questiona quanta certeza Rachel tem sobre querer passar o resto da vida dela com ele - e ele, com ela.

Um belo dia Dev pede para conversar com Rachel e ela diz que ele tinha razão. Justo quando ele havia decidido que ela era o amor da vida dele, ela diz que vai passar uma temporada em Tóquio, porque não quer acordar um dia e perceber que deixou passar todas as oportunidades, todos os momentos que poderia aproveitar. Dev a segue, ou melhor, segue a lógica - e vai para a Itália (mesmo que eu tenha pensado até o minuto final que na verdade ele iria atrás dela).

Master of None é, para mim, uma série tão real que dói, que me deixou em posição fetal pensando sobre tudo que haviam jogado na minha cara.

Sabemos que é praticamente impossível ter 100% de certeza sobre o que queremos da nossa vida. Sabemos que, às vezes, para escolher um caminho precisamos abrir mão de todos os outros. Sabemos que nem sempre conseguimos conciliar algumas coisas. Eu costumo pensar que não existe “cedo demais”, mas que existe tarde demais. Faz sentido?

Quantas vezes tivemos a sensação de que esse ano trouxe menos oportunidades que o ano passado? Quantas vezes estávamos inseguros demais para aceitar algo ou nos seguramos firmemente no “eu não sei”? Muitíssimas. Inúmeras vezes acabamos dando mais atenção a algo que nem nos importamos de verdade, seguimos em relacionamentos desconfortáveis porque “já investimos tempo demais” ou porque “não dá pra recomeçar agora”.

Tão difícil quanto arriscar um caminho é pensar em recomeços. Em tomar uma nova direção. Em se colocar em primeiro lugar. Em acreditar em sonhos. Tão difícil quanto optar é tentar equilibrar a própria vida. Tão difícil quanto escolher é arcar com a certeza de que nunca saberemos se estamos no caminho certo. Estamos sempre nos lamentando pelo que tivemos que deixar para trás e esquecemos do novo caminho que podemos criar.

Anitelli diria, lá nos primórdios da sua carreira: “deixo explícito que se for pra frente, coisas ficam para trás. A gente só nunca sabe que coisas são essas”.

Alguém sabe?