Meu Palanque

19.5.13

as coisas quando deixam de existir



- Posso saber o que você faz aqui?

Júlia havia acabado de chegar a sua casa. Bufando. Encharcada devido a chuva que a pegara de surpresa. Tentava se confortar com a ideia de que nunca mais precisaria pisar naquele maldito escritório. Sairia de lá, sumiria dali. Deixaria esquecido naquela cidadezinha infernal tudo que a impedia de viver. Viveria seu sonho. Fosse ele qual fosse.

- Tô aqui pra falar com você.

Mas ele estava ali. Encostado no muro de sua casa, ao lado da entrada, apoiando um pé na parede. Pablo. Aquele que deveria tê-la salvado, afinal, não é isso que o amor faz? Aquele que supostamente a amava. Era frustrante pensar em quanto tempo havia perdido.

- Uhum.

Abriu a porta. Jogou a bolsa em um canto qualquer no chão da pequena sala escura. Ele entrou logo em seguida, em silêncio. Fechou a porta. Sabia que a pior tempestade acontecia ali dentro. Seguiu Júlia até o quarto. Deu de cara com uma mala aberta em cima da cama.

- Desembucha – esbravejou a menina.

- Você sabe... Isso é tão exagerado.

- Aham.

- Cara... Para com isso.

- Não rola.

- Olha, sério. Para com isso. Tá chato. É chato. Não precisa tanto...

- Hum.

- Não foi nada demais. É uma fase.

- Fase. É.

Duas calças, três blusas, seu vestido favorito. Algumas calcinhas, meias e sutiãs. Não precisava de muito. Um casaco. Pequenas pilhas de roupas ao redor da única mala aberta.

- Você está exagerando.

- Estou.

- Você é tão...

- Tão?

- Nada.

- Fala.

- Esquece.

- Fala, porra!

- Radical.

- Ah.

- Desculpa

- (silêncio)

- Mas é verdade.

Roupas separadas e dobradas. Documentos, cartão do banco, uns trocados e remédios, especialmente os que a faziam dormir. RG e passaporte, não poderia esquecer. Tudo colocado em uma bolsa de mão. 

- Não acho que você saiba o que tá fazendo.

- Pena.

- Porque parece muito...

- Radical. Aham.

- É.

- (silêncio)

- Olha, não seja chata. Pare com isso. É bobagem.

- Tá.

Mala fechada.

Casaco? Ok. Bolsa de mão? Ok. Guarda-chuva? Ok. Botas? Ok.

Caminhou em direção à saída sem sequer olhar para os lados. Abriu a porta.

- Pablo?

- Que é?

- Não me procura. Não tenta. Volta pra Colômbia, pro Uruguai, pro raio que o parta. Mas esquece que eu existo. Mais fácil: continua não se importando comigo.

- Júlia, eu...

- E já que tá aqui, tranca essa porta e entrega essa chave pra vizinha. Ela sabe o que fazer.

- Júlia, para.

- Cansei disso. De você. De me sentir um erro o tempo todo. Cansei de gente me dizendo o que fazer e como e o quê e quando sentir.

- Júlia, nós...

- Não existimos mais.

Entrou no táxi que acabara de chegar. À medida que tomava distância, sua visão ficava embaçada. Afastar-se bloqueava sua visão do passado, a manteria longe dos problemas.

Exatamente como deveria acontecer.


17.5.13

Como superar os dias em que você não deveria ter saído da cama



Você, eu e provavelmente o mundo todo já passamos por esse dia. Um "bay hair day", uma unha quebrada, uma dor descomunal no estômago, atraso, ônibus lotado, congestionamento ou seja lá qual for o motivo: vai existir um dia (ou mais) que você vai pensar, em algum momento (ou em vários) que não deveria ter saído da cama.

Eu tive esses momentos em todos os dias dessa semana, em alguns dias da semana passada e em outros dias esporádicos. Tenho a impressão de que o dêsanimo dos dias-em-que-você-não-deveria-ter-saído-da-cama são bem mais intensos nas sextas-feiras... 

Hoje eu superei esse momento e ainda consegui terminar meus trabalhos 45 minutos antes do fim do expediente e é por isso que tô aqui, atualizando o blog em plena sexta-feira. Pratiquei comigo mesma uma terapia interna e intensiva para poder encerrar o dia sã e estoy aqui, compartilhando as dicas!

(weheartit)


01. Ouça música

Muita gente ouve música quando está estressado, triste ou o que quer que seja, mas aqui eu não falo de nenhuma música mais profunda ou qualificada para os momentos que você pode se trancar no quarto e esquecer do mundo - afinal de contas, se você estivesse esquecendo o mundo no quarto, não precisaria desse post. Falo daquelas músicas, digamos, bagaceiras. Eu passei a semana inteira morrendo de vontade de ouvir Kaoma (isso mesmo) e ficava cantarolando Chorando Se Foi o tempo todo. Tirando o fato que eu morro de vergonha de dançar, foi ótimo ficar batendo os pés e me mexendo discretamente na cadeira imaginando que eu estava dentro do clipe dançando lambada com um hombre muy caliente e NÃO PERA. O importante é ouvir uma música animada, que te deixe mais relaxado.

02. Se concentre em algo que gosta de fazer

Eu sei que nesse fim de semana a única coisa que quero é dormir. Se sobrar tempo (rs), vou ao cinema ou a um festival de música da cidade. Então me concentrei nisso e em como eu me sinto bem quando consigo ter mais de cinco horas de sono. Então me concentrei nisso. No próximo fim de semana vou para São Paulo ver umas amigas. Em junho, uma amiga de Maringá vem pra São Paulo. Lembrar de como me sinto bem quando estou me divertindo faz meu corpo desfrutar da mesma sensação de bem-estar (ao menos é o que dizem). Experimente.

03. Se desligue

Quando estamos nos dias-em-que-você-não-deveria-ter-saído-da-cama qualquer coisa é coisa. Se desligue de tudo e qualquer coisa que possa atenuar essa raiva, frustração ou desespero (lembre-se: don't pânico!). Você tem todo direito de sentir raiva até morrer de rir, então tente não dar atenção a comentários que contrariam isso. Afinal, não existe ninguém que está sempre satisfeito e exalando serenidade. Busque ter conversas produtivas (eu, no caso, sempre recorro a algumas pessoas que são tiro e queda, rs)

04. Trace um plano absurdo. Ou invente uma história absurda.

Dia desses comentei com uma colega de trabalho que tenho vontade de passar um dia todo em um lugar onde ninguém me conhece, dizendo que me chamo Valentina, que nasci em outro país e sou uma refugiada sonhando em ser musicista no Brasil. Ok, a história não era essa, mas eu me perdi pensando em quantas pessoas eu poderia ser nessa situação. Geralmente também me perco traçando métodos de dominar o mundo ou conquistar dias de folga: eu poderia ter sido abduzida, poderiam ter me recrutado pra cobrir uma guerra causada do nada. De vez em quando só fico vendo pela janela quem passa pela rua e criando histórias de vida para elas.

05. Adoce a vida

Na esquina da rua onde trabalho tem um boteco com as melhores trufas, cones e bolos. Nada mais a declarar.
Adendo: na porta da faculdade também tem.

06. Lembre-se sempre de onde seus afazeres diários te levarão.

Trabalhar engrandece (ou só paga suas contas) (ou só vai bancar aquela viagem que você gostaria de fazer). Estudar vai te dar um futuro melhor (ou ao menos, companhia para o bar). Etc etc. Isso depende do que você considera motivador.

Dica extra, sugestão da Lu: olhe para o céu e respire fundo, estando ele azul ou não. 

Se nada funcionar, lembre-se apenas que falta menos um dia para o fim de semana.

 
Meu Palanque © Cyan Driad adaptado e modificado por 187 tons de frio.