Meu Palanque
Maio 31, 2012

Capão Pecado, por Ferréz

"'Querido sistema', você pode até não ler,
mas tudo bem, pelo menos viu a capa."
Quando comentei com Marquinho que havia ido aos Saraus no São Bento, não fazia ideia da quantidade de coisa que ele conhecia sobre o movimento e podia compartilhar comigo. Eu me sentia até perdida, afinal de contas, sou iniciante na questão da literatura periférica e dos movimentos sociais que esse pessoal realiza. Aí um dia, no laboratório de fotografia, ele me disse que tinha algo pra me emprestar.

Esse "algo" era o livro Capão Pecado, do escritor Ferréz. Um cara simplesmente foda (porque não tem palavra bonitinha que traduza meu pensamento em relação a esses escritores). Até então eu nunca tinha ouvido falar do Capão Redondo nem do que acontece por lá. Até então eu tinha aquela visão limitada e estreita de relacionar favela/periferia ao Rio de Janeiro e de dizer que "poxa vida, que vida sofrida a dessa gente... Mas se envolveu com o que não presta porque quis". Vergonha.





- O nome "campo de batalha" se deu porque é uma constante luta pela vida, tá ligado? Você tem que correr atrás de um emprego para se sustentar, tem que estudar para não ser manipulado, tem que ficar esperto com a polícia porque você é favelado, tem que ter consciência para não cair na porra da droga, tem que ter calma para não sentar o dedo nos nóia e uma pá de coisa que só um soldado da favela tem pra sobreviver. (Conceito Moral)

Eu devo ter enrolado algo como um mês pra pegar o livro e ler, e não sei explicar o motivo. Sei que não passava um dia sem pensar "tenho que ler esse livro" e imaginando o quão surpresa eu ficaria. Ontem acordei cedo, comecei a ler e lá pelas três da tarde já havia acabado. Eu simplesmente não queria parar de ler, não queria parar de conhecer a vida daqueles personagens pela metade e terminar "no dia seguinte".

Capão Pecado é escrito de uma forma muito simples, e quando eu digo simples quero dizer que ele é escrito praticamente da forma que falamos. É como se você tivesse ouvindo as pessoas conversarem, usando e abusando de gírias, sem se importar muito com a forma culta da língua portuguesa ou "frescuragens" do tipo. Sem se importar muito em manter uma única linha de raciocínio para narrar a vida dos personagens. Deve ser porque, de alguma forma, a vida de todos eles está interligada de algum jeito. E é exatamente por isso que o livro é bom.

O livro é dividido em partes e a abertura de cada uma delas é feita com o depoimento de alguém (como o Mano Brown, que aparece na primeira parte) e só de ler os depoimentos minha visão sobre "essa gente" foi mudando. E aí, a história: fala-se de Rael e a partir dele, de sua família (mãe doente, pai alcoólatra), de seu esforço para ajudar em casa, dos seus amigos, da família deles, do envolvimento de alguns com as drogas, dos sonhos de outros, do que fazem para sobreviver, dos problemas com a polícia e de como abusam do poder que têm, além de fazer uma crítica a várias questões da sociedade "elitizada".

E falando por mim, posso dizer que cada detalhe do livro te faz ganhar uma nova visão de mundo, afinal de contas, pode não existir um Rael de verdade, mas certamente a vida que foi descrita se aproxima muito da vida de outras pessoas. Te faz "descobrir" que embora sonhem, embora queiram melhorar, nem sempre tem essa chance ou alguma oportunidade, que eles não "escolheram" correr o risco de morrer a qualquer instante ou de perder um parente.

- "... um lugar em que você pode perder a vida num piscar de olhos, um lugar que é considerado o Pecado das periferias, um lugar chamado Capão Redondo." (Outraversão)

Capão Pecado não é, pra mim, um livro que você vai ler, ter uma lição de moral no final e deixar pra lá. Capão Pecado é um livro que você vai ler e vai te fazer pensar melhor todas as vezes que ver na TV qualquer coisa sobre a guerra do tráfico, todas as vezes que julgar alguém com uma condição não tão boa quanto a sua, todas as vezes que pensar que "são todos uns vagabundos, uns bandidos".

Capão Pecado foi o livro que fez com que eu me sentisse impotente, que fez com que eu desejasse poder fazer alguma coisa - por eles, por mim, por todos. Mas Capão Pecado foi também o livro que me fez agradecer por ter gente que ainda sonha e acredita que é capaz, ainda que exista toda uma sociedade o menosprezando... Porque Caio Fernando Abreu que me desculpe, nem ele foi capaz de mexer comigo como fez esse livro.
Maio 29, 2012

O mundo muda com a gente

Sábado Milena me contou que "não sabe o que quer" e que havia passado o dia com a música "Eu não sei na verdade quem eu sou", do Teatro Mágico, na cabeça. Eu adoro essa música, então entendia totalmente o que ela queria dizer. Eu também não sei o que quero, embora tenha vivido até os 18 anos com a paranoia de ter que saber cada passo que eu traçaria na vida. 

Aí um dia eu descobri que não era bem assim e, ainda que eu tenha PhD em me cobrar (demais, demais, demais), sei que não existe um livro de regras detalhadas para eu seguir e ter sucesso na vida. Eu conheço meus pontos positivos e negativos. Mas isso não define quem eu sou (só o que eu sou, talvez). Eu sei de pelo menos cinco coisas que quero fazer na vida, duas ou três áreas do meu curso que quero experimentar e uma boa quantidade de lugares que quero conhecer. Outra dúzia de coisas que quero aprender. Com quais pessoas quero dividir minhas frustrações e explosões de alegria. E assim vai.

Isso também não define quem eu sou, mas eu gosto de acreditar que já é um passo.

Deve ser por isso que, embora leia, não seja adepta de seguir regras dos livros de autoajuda ou revistas "femininas". Porque sendo eu, Franciellen, indivíduo único nessa sociedade, é de se imaginar que minha vida, descobertas e caminho sejam únicos também. E que entre caminhadas e tropeços eu vá me descobrir (Isso vale pra Mi, pra Gabs e pra quem mais se sinta meio que perdid@), afinal de contas, quando a gente resolve mudar, o mundo muda com a gente.

(daqui)

No mesmo sábado, Milena estava toda animada e com ótimas ideias para Gabs e eu. Ela dividiu conosco algumas coisas que pensava e eu resolvi adotar a ideia, mesmo porque, seria imperdoável recusar ideias que vieram tão cheias de entusiasmo - e porque eu já havia tentado pensar em algo, mas não sabia como colocar em prática.

É por isso que vejo avisar que mudarei algumas coisas no blog. Já havia falado disso, mas agora começarei a colocar em prática. Então as postagens serão divididas mais ou menos assim, ó:

- Achei na Net: Eu sou expert em lotar meus amigos de mensagem offline com um monte de coisas que encontro. Blog, tumblrs, links, vídeos, imagens ou seja lá o que for. As vítimas, agora, serão vocês.
- Convidados: Fiz só duas vezes por enquanto, mas pretendo mantê-la. Ela será atualizada toda vez que eu convidar(!) alguém para escrever ou falar sobre algum assunto que considero legal.
- Crônicas e contos: Faz tempo que não atualizo, mas foi assim que comecei o blog. Guardará todos os contos e crônicas assinados pelo meu eu-lírico.
- Do It Yourself: ou "faça você mesmo" são as dicas de coisas legais e fáceis de fazer, seja para decoração ou uso.
- Jornalismo: começou com um desabafo, seguiu com um texto pseudo-humorado sobre absurdos que se ouve por aí e vai continuar com dicas que pretendo dar (de livros, de filmes e assuntos do gênero).
- Megafone: Se eu estou num palanque, indignada feito Pagu, nada melhor que expressar minha opinião sobre assuntos que acho convenientes, certo? E eu sempre fui de meter o bedelho em polêmicas mesmo... (:
- Multi-biblioteca: É aqui que eu vou depositar indicações de tudo que gosto: livros, séries, filmes e música. Categoria que vai virar meu xodó, quase certeza.
- Notas e avisos: Só pra quando as postagens se resumirem em avisos sobre porque eu sumi, por exemplo.
- Para visitar: Eu fiquei em dúvida se colocava visitar ou conhecer, mas nessa categoria pretendo indicar lugares e eventos que gostei ou gostaria de ter ido. Acho importante, porque adoro ficar sabendo dessas coisas. e espero poder estar presente na maior parte deles.
*Aceito ser contratada para cobrir eventos, de repente, hehe.
- Pessoal: é a antiga "Querido Diário". Todo sentimentalismo ou coisas (f)úteis sobre meu dia-a-dia.
- Selinhos e memes: Quase nunca é atualizada, mas quando tiver algum meme circulando por aí, é lá que ela estará. Melhor que ficar avulsa :P

E, por enquanto, é isso. Eu espero que gostem e que se animem tanto quanto eu estou animada para começar a preencher essas colunas! Podem opinar ou sugerir melhorias. E, ah: obrigada, MUITO OBRIGADA, a tod@s que não me deixaram desistir ou desanimar. Direta ou indiretamente.